André  Veríssimo
André Veríssimo 23 de novembro de 2016 às 00:01

A vantagem de ser tolerante

Num mundo onde crescem os nacionalismos e os fenómenos de intolerância, a forma aberta como Portugal aceita e recebe outras culturas transforma-se numa vantagem comparativa, que vale a pena aproveitar.
O crescimento dos populismos, de mão dada com o racismo, os sentimentos anti-imigração e anti-semitas, cria uma fronteira entre os países que os têm e aqueles onde eles não existem ou são residuais. Portugal está, claro, no segundo grupo.

Ao facto de sermos um país seguro, com estabilidade política e social, podemos juntar como elemento de atractividade sermos um país genericamente tolerante. Nem sempre foi assim na nossa História, e talvez não fosse hoje se tivéssemos recebido uma vaga de emigrantes como a Alemanha ou a Itália. Mas é claramente um traço da nossa cultura, patente quer na forma como, na pele de emigrantes, nos adaptamos aos países de destino, quer como anfitriões recebemos quem nos escolhe.

É inegável que a segurança e a estabilidade social são hoje factores de atracção do turismo, que dão a Portugal uma vantagem comparativa em relação a destinos onde estas condições se deterioraram, como o Magrebe, o Norte de África e até alguns países da Europa. A que se junta agora a tolerância.

A mesma combinação virtuosa contribui para que o país seja procurado por quem tenta tirar partido dos vistos "gold" ou do regime fiscal para o residente não habitual. Mais, pode ajudar a trazer talento para Portugal. Numa entrevista recente ao Negócios, o "chief operating officer" da BlaBlaCar realçava que "com o que aconteceu nas eleições nos EUA poderemos ver talentos a voltar para a Europa".

A imagem, verdadeira, de um país tolerante pode até ajudar a trazer investimento, a atrair, por exemplo, mais centros de tecnologia. Como se viu nos EUA, a ascensão do populismo ao poder acarreta o risco de uma mudança súbita nas políticas, ao trazer uma agenda onde muitas vezes coabitam doutrinas nacionalistas com proteccionismo comercial e até uma maior intervenção do Estado na economia. É um factor de incerteza, coisa que os investidores não apreciam.

O presidente da Câmara de Lisboa percebeu isso quando, no dia a seguir à eleição de Donald Trump, colocou à porta da Web Summit um cartaz em inglês onde se lia que "no mundo livre ainda pode encontrar uma cidade para viver, investir e construir o futuro. Fazer pontes, não muros." Porque são estes os valores que a cidade e o país partilham. E eles hoje distinguem-nos.

É brutalmente revelador do mundo para o qual caminhamos, mas a tolerância é um substantivo que passou a fazer sentido numa campanha sobre Portugal. E, infelizmente, não se vê jeitos que venha a deixar de fazer. 
A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
helmarques 23.11.2016

"que a segurança e a estabilidade social são hoje factores de atracção do turismo, que dão a Portugal uma vantagem comparativa em relação a destinos " então acredita mesmo nisto, os turistas visitam-nos por causa do governo do sr. Costa, o que significa que antes dele não existia turismo..."um país tolerante pode até ajudar a trazer investimento, a atrair, por exemplo, mais centros de tecnologia"...Cuba não é um país tolerante? então o investimento procura tolerância...não é este o jornal mais apropriado para fazer campanha pelo governo, nota-se que não é tolerante porque o que escreveu nada tem a ver com tolerância. E vir para aqui escrever sobre o presidente da camara não lhe fica bem...vc parece um lambe-botas, para não escrever outra coisa...

Pedro 23.11.2016

Somos tao tolerantes! Nao como os nazis dos alemaes, nem os racistas dos americanos. Nada de lojas de chineses ou indianos. Tratamos dos racistas pró-israel. Acolhemos brasileiras de pernas abertas, e brasileiros bons de pés. Os ciganos é que só gostam dos da raça deles, mas tb nao sao portugueseses