Celso  Filipe
Celso Filipe 16 de fevereiro de 2017 às 00:01

Construam-me, porra!

Corria o ano de 1994 quando um grupo de militantes da Juventude Socialista de Beja resolveu escrever na parede de um pontão feito para suportar as obras do Alqueva a frase, simultaneamente provocatória e irónica: "Construam-me, porra!"
A parede, que durante anos ostentou estes dizeres havia sido levantada em 1977 e a barragem do Alqueva, depois de décadas de protelamento, só começou a ser construída em 1998. Hoje, ninguém questiona a importância decisiva que o Alqueva teve e tem para a dinamização da economia alentejana, nas suas mais variadas vertentes, que vão da agricultura ao turismo.

O "construam-me, porra!" também pode ser aplicado, com propriedade, às necessidades aeroportuárias da Grande Lisboa. Durante décadas, andou-se às voltas com o tema e o debate sobre a localização de um novo aeroporto foi-se eternizando, umas vezes Ota, outras Alcochete, ou então soluções de compromisso como a reconversão das bases aéreas, de Alverca ou do Montijo. Cada uma delas com vantagens e inconvenientes, mas sempre com o mesmo triste destino, o de não saírem do papel.

É óbvio que não existem soluções perfeitas. Há quem aplauda a decisão agora tomada de reconversão da base aérea do Montijo para receber aviões civis, outros que preferiam que se começasse já a construir um aeroporto de raiz que a longo prazo substituísse, na totalidade, o Humberto Delgado. Existem argumentos plausíveis para sustentar qualquer uma das opiniões, mas no fim do dia há uma que tem de prevalecer. Como em tudo na vida.

O memorando de entendimento, ontem assinado entre a ANA e o Governo, tem o mérito inquestionável de pôr termo a este interminável debate sobre a localização de uma nova solução aeroportuária . É um acordo fechado sob pressão, porque o crescimento do tráfego de passageiros e a necessidade de aumentar a competitividade do aeroporto de Lisboa face à concorrência assim o obriga. Mas é, sem margem para dúvidas, um acordo para aplaudir porque nos pratos da balança o peso das vantagens é muito maior do que o das desvantagens.

A nova solução aeroportuária para Lisboa só estará operacional entre 2020 e 2021. Até lá a ANA fará contorcionismo para acomodar a procura e o aumento do tráfego no Humberto Delgado. Daqui a uma década ou duas, tal como aconteceu em relação ao Alqueva, serão produzidas loas sobre os benefícios do Montijo para Lisboa e para o país. Vai uma aposta? 


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comentários mais recentes
Anónimo Há 2 dias

Curiosamente durante o seu longo percurso televisivo o TV Rural nunca se deslocou a essas terras para dar um relato da grande obra que se estava a levantar... O Eng. Sousa Veloso e o PSD que o idolatrava gostavam muito era do minifúndio a Norte do Tejo...

surpreso Há 5 dias

JAMÈ!

Rui Alegria Há 5 dias

Chamam-lhe Aeroporto do Montijo mas verdadeiramente fica junto à povoação Samouco que pertence ao concelho de Alcochete. Não sei onde pensam construir os acessos para Lisboa será que vão fazer o mesmo que fizeram com o Freeport destruindo reserva natural?

helmarques Há 5 dias

Não há nada para aplaudir nem para "desaplaudir". Num país sem dinheiro em que o dinheiro dos bancos é para comprar divida pública, a obra custará 400M€, e pelos vistos maior parte paga pela ana, antes seriam 2000M€, e mais uma ponte. Afinal existem sempre boas soluções e pelos vistos não tão caras, mas claro que vai ser necessário um comboio "ligeiro" (talvez feito pela siemens) a passar na Vasco da Gama, e claro que surgirão outras coisas e manifestações contra, pq sabem que ali há dinheiro e é preciso sacar algum... Marcelo Rebelo de Sousa ainda não disse nada, o que é suspeito.

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