Raul Vaz
Raul Vaz 25 de setembro de 2017 às 23:00

A amiga improvável

É um fascínio da natureza humana. Como o demónio se transforma na esperança de que vença um aperto. Angela Merkel é hoje para a esquerda, da mais lúcida à mais radical, a aposta em que se encavam todas as fichas. Sem pudor ou memória, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e os tagarelas do PS bafiento olham para a senhora e pedem aos santinhos que seja ela (lembram-se o que eles diziam de Merkel?) a salvadora da pátria.
Angela Merkel e o seu terrível ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, nunca foram o demónio. Muito menos fascistas ou proto qualquer coisa que a esquerda não sabe o que é por pura ignorância e manifesto mau feitio. Mais: a esquerda quanto mais saboreia o poder mais sente uma irresistível e vociferante vontade de vingança.

Merkel está, e bem, nos antípodas dos princípios inamovíveis de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. A chancelar alemã tem lutado por uma Europa de direitos e equilíbrios (numa progressiva aproximação entre as diferenças económicas, financeiras e culturais da União), enquanto os extremismos, de esquerda ou de direita, destroem esse caminho. O único objectivo é esse, desgastar com a verborreia de um edifício fictício, que serviria de alternativa construída em cima de slogans e amanhãs que cantam alto.

Não é um exclusivo português – numa forma de vida que naturalmente se deve ler como uma bizarria perigosa. Aqueles que desprezaram Merkel por preconceito e ignorância, e demonizaram Schäuble por arrogância paroquial, torcem a orelha quando a extrema-direita se afirma como a terceira força política no Parlamento alemão.

Claro que eles dirão que a culpa está no mesmo, em Merkel e Schäuble. Claro que da empáfia nasce o paradoxo: são os mesmos que, envergonhadamente, aplaudem a política migratória da Alemanha, a persistência para que a Grécia deixasse, precisamente ontem, o procedimento de défice excessivo, a reconstrução de um eixo com Paris, a negociação exigente com o Brexit, o desprezo distante por Trump.

Os resultados eleitorais na Alemanha não podem ser lidos de uma forma mimética com a realidade portuguesa. Mas também não devem deixar indiferentes aqueles que não se cansam de louvar os méritos da geringonça. Que vive de um indisfarçável equilíbrio entre prática e retórica. Ao contrário de Angela Merkel, onde habita a irresistível utopia europeia.

Goste-se ou não, ela é o improvável garante de um ideal europeu que não é o perfeito, mas sim o essencial e realista caminho que o continente tem de tomar, ou correr o risco do desconhecido retrocesso. Muitos dos que vilipendiavam Merkel tremem, secretamente, agora que ela ficou numa posição de menos força. Valha-nos o seu realismo tranquilo, que faz mais pela Europa num dia do que anos de gritos de reversões e renegociações. 

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