Celso  Filipe
Celso Filipe 22 de junho de 2017 às 00:01

A árvore e a floresta

O país ainda está a fazer a catarse da tragédia de Pedrógão Grande. A morte, em circunstâncias dantescas e porventura evitáveis, convoca sentimentos como a raiva, a dor, e a impotência. As imagens daquela estrada, salpicada por carros carbonizados, vão ficar na história das catástrofes nacionais, como aconteceu com as do acidente ferroviário de Alcafache ou da queda da ponte de Entre-os-Rios.
O correr dos dias irá tirar progressivamente o assunto das primeiras páginas dos jornais e o debate sobre os incêndios viverá ao sabor da intensidade dos fogos de Verão.

O próximo passo nesta triste história será, naturalmente, a demissão da ministra da Administração Interna. Não porque Constança Urbano de Sousa tenha culpas no cartório. A responsabilidade da ministra é política e resulta da irresponsabilidade com que os sucessivos governos têm tratado das matérias relativas à prevenção dos incêndios. A saída de Constança Urbano de Sousa, neste contexto, é uma fatalidade paliativa e deixará tudo o resto por resolver. Até porque muitas das matérias são transversais e envolvem outros ministérios como o da Agricultura.

Depois surge a tentação de resolver à pressa o que se foi empurrando com a barriga durante anos. O PS está agora disponível para desbloquear a reforma da floresta e a fazer cedências aos outros partidos da geringonça, o PCP e o Bloco, que querem travar a plantação de mais eucaliptos. E vai-se pela lógica simplista de que existem árvores "boas" e árvores "más", relevando-se a questão de fundo. Porque, como sublinhou o presidente da CAP, Eduardo Oliveira e Sousa, numa entrevista ao Negócios e à Antena 1, em Maio deste ano, "a natureza não produz plantas más". "Se houver conhecimento e ordenamento correcto, o eucalipto não faz mal nenhum estar implantado em Portugal da forma como está", acrescentou. Ou seja, mais do que um problema de género, a questão da floresta tem que ver com a sua conservação, limpeza, acessibilidade, vigilância, propriedade e também rentabilidade.

Em paralelo, corre um problema que nenhuma lei consegue prevenir. Trata-se do exercício de cidadania de forma responsável, porque ninguém tem dúvidas de que muitos fogos nascem da incúria e do desleixo, práticas cujo berço é uma precária educação cívica.

A memória das vítimas de Pedrógão Grande não exige rapidez. Exige, isso sim, que se faça uma reforma da floresta cuidadosa e eficaz que passe efectivamente do papel à prática. Começando pelo início, porque como diz nesta edição o bastonário da Ordem dos Solicitadores, "hoje em dia ninguém sabe de quem é a floresta". 
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mais votado TinyTino Há 4 semanas

A natureza não produz plantas más? Claro que produz, sobretudo quando não são autóctones. Tal como animais. A introdução dos coelhos na Austrália destruiu a fauna local, a plantação intensiva de óleo de palma levou à destruição dos ecossistemas de floresta no sudeste asiático. A invasão da América do Sul e do norte por abelhas africanas e agora por vespas asiáticas está a destruir as abelhas europeias necessárias à polinização das plantas. Da mesma forma a retirada de espécies de determinado ecossistema pode destruir esse ecossistema rapidamente. https://www.youtube.com/watch?v=ysa5OBhXz-Q
Sejamos sérios e sobretudo escrevamos daquilo que percebemos. Não há ordenamento nenhum no plantio de eucalipto, quando nem licenciamento é necessário.
https://www.publico.pt/2014/01/25/economia/noticia/eucaliptos-dominam-pedidos-ao-abrigo-da-nova-lei-de-arborizacao-1620997
"Nos três primeiros meses da polémica legislação, 92% da área de novas florestas ou reflorestações refere-se a esta espécie."

comentários mais recentes
Jose Há 4 semanas

Durante este ano, e para os próximos, os incêndios vão continuar, porque existem há 40 anos, e ninguém fez nada para se alterar o problema. E o problema não é a falta de dinheiro. O problema é falta de capacidade de gestão do território. Porque será que nunca ardeu o Monsanto, ou a Mata do Buçaco?

Mario Há 4 semanas

Vai ficar na história mas não na memória. Ficará só na memória dos que passaram pela tragédia. Por mais esforços que se façam, nunca se pode contabilizar o que se evitou com eles. Apenas se sabe que sempre irão acontecer desastres, acidentes, inquéritos, "culpados". Porque razão ninguém atribui papel de relevância à sorte e ao azar, na nossa vida, não entendo.

TinyTino Há 4 semanas

A natureza não produz plantas más? Claro que produz, sobretudo quando não são autóctones. Tal como animais. A introdução dos coelhos na Austrália destruiu a fauna local, a plantação intensiva de óleo de palma levou à destruição dos ecossistemas de floresta no sudeste asiático. A invasão da América do Sul e do norte por abelhas africanas e agora por vespas asiáticas está a destruir as abelhas europeias necessárias à polinização das plantas. Da mesma forma a retirada de espécies de determinado ecossistema pode destruir esse ecossistema rapidamente. https://www.youtube.com/watch?v=ysa5OBhXz-Q
Sejamos sérios e sobretudo escrevamos daquilo que percebemos. Não há ordenamento nenhum no plantio de eucalipto, quando nem licenciamento é necessário.
https://www.publico.pt/2014/01/25/economia/noticia/eucaliptos-dominam-pedidos-ao-abrigo-da-nova-lei-de-arborizacao-1620997
"Nos três primeiros meses da polémica legislação, 92% da área de novas florestas ou reflorestações refere-se a esta espécie."

Mr.Tuga Há 4 semanas

o FULCRAL está precisamente no penúltimo paragrafo! PARABENS!
"problema que nenhuma lei consegue prevenir. Trata-se do exercício de cidadania de forma responsável, porque ninguém tem dúvidas de que muitos fogos nascem da incúria e do desleixo, práticas cujo berço é uma precária educação cívica."