André  Veríssimo
André Veríssimo 23 de novembro de 2017 às 23:00

A autodestruição do futebol

O futebol e tudo o que à volta dele gira tem um valor relevante para a economia portuguesa. Tristemente, aqueles que nele representam as instituições mais influentes tudo têm feito para o destruir.

O futebol profissional em Portugal é um lugar cada vez mais insalubre. A verborreia rasteira e os insultos trocados  numa cadência quase diária pelos dirigentes de Benfica, FC Porto e Sporting  e seus lacaios transformaram o que deveria ser uma saudável rivalidade num pântano cada vez mais fétido.

O que sobressai do futebol não é o desporto. É um chorrilho de suspeitas de corrupção, de comissões ilegais na transferência de jogadores, de pressões sobre árbitros. Sobre os juízes há um estigma enraizado: não erram, roubam.
Ponto final. Não admira que recorram à ameaça de não apitar – estranha-se que ainda apitem.


Neste jogo, destinado a inflamar e fidelizar a horda próxima de apoiantes, os dirigentes, que se acham acima dos "seus" clubes, vão desbaratando o valor das instituições. Basta pensar que sentido faz ser adepto de um desporto que todos dizem viciado, ou uma marca pagar para se associar a outra cujos valores que lhe estão associados são os do ódio, da incivilidade e até da violência. Há quem pague, e muitos milhões, como ainda recentemente se viu. Mas não estarão arrependidos? Estarão dispostos a desembolsar o mesmo no futuro?


Capturado pela cegueira de quem dirige os três grandes, o futebol português vai perdendo competitividade e relevância face a outras ligas estrangeiras. Perder os bons atletas ainda muito jovens é já encarado como uma inevitabilidade. Hoje ninguém acredita que o FC Porto consiga repetir a façanha de 2004. Nem o FC Porto, nem nenhum dos outros clubes.

As contas até têm vindo a melhorar, à força das restrições impostas pela banca e pela UEFA, mas continuam muito longe da sustentabilidade. Em vez de se aproveitar o élan criado pela vitória da selecção portuguesa no Campeonato da Europa para afirmar uma imagem positiva e agregadora, dão-se tiros no pé, uns atrás dos outros.

Perde quem gosta de futebol e perde o país. No ano passado, o INE divulgou números sobre o impacto económico do desporto que, mesmo sendo relativos ao período entre 2010 e 2012, ajudam a dar uma ideia da sua importância. O sector correspondeu a 1,2% da riqueza (valor acrescentado bruto) criada naquele triénio e 1,4% do emprego, mais do que muitos outros. O futebol representará, de longe, a maior fatia. Não sabemos que contributo dará agora, mas é fácil intuir que a manutenção do actual ambiente só conduzirá à pequenez.

Os apelos e as medidas propostas pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol caíram, até agora, em saco roto. O Governo acha bem, mas não intervém. Criou-se um G15, sem os três grandes, que nunca será credível ou consequente. Seja como for, custa a crer que com os actuais protagonistas seja possível inverter este processo de autodestruição em curso.

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