Tiago Freire
Tiago Freire 14 de fevereiro de 2017 às 00:01

A chico-espertice do Governo

Há uma linha de actuação que se insinuou, e finalmente se impôs na sua clareza. Desde a derrota eleitoral de 2015, da forma como conseguiu fazer o inédito, António Costa habituou-nos a soluções pouco convencionais, mas inegavelmente eficazes.
Se, nesse episódio original, poderíamos estar perante uma solução de recurso e quase improvisada (não era assim, sabemos agora), tudo o que foi acontecendo ao longo do último ano tornou claro que a aposta não foi fruto de uma inspiração momentânea. No meio do mar tumultuoso da política e das contas nacionais, Costa encontra sempre uma maneira, qual MacGyver, de atingir o seu objectivo. O primeiro-ministro é a personificação perfeita da capacidade portuguesa para o desenrascanço, e até para uma certa chico-espertice. Os cães - muitas vezes cheios de razão - ladram, e a caravana passa. Costa continua a sorrir, como se não fosse nada consigo e tudo não passasse de mais uma qualquer "trica" política.

Foi assim que montou o Governo. Foi assim que desembrulhou os dossiês do BPI, do BCP, dos lesados do BES. Escolhendo muitas vezes o caminho menos óbvio, inclusivamente mudando as leis para que estas acautelassem casos concretos. Costa, que fala das vacas que voam, é, na verdade, um pragmático. Há um problema, ele resolve ou tenta resolver. O objectivo é que conta, não o método.

Na Caixa, foi também assim.

Perante o muro de dificuldades que era a situação na CGD, o primeiro-ministro pegou numa série de impossibilidades e conseguiu uma recapitalização de um banco 100% público, com dinheiro público, sem que tal fosse considerado ajuda de Estado. É obra, e aí vimos o lado bom da sua magia.

António Domingues desenhou o plano, entregou a Costa a chave para o que era preciso ser feito, e esse caminho era, então, indissociável do seu criador. Só havia um problema, ou vários. As exigências de Domingues, por um lado; e as exigências da lei, por outro. O objectivo final era demasiado precioso para deixar que certas regras e procedimentos "burocráticos" o impedissem. O que se fez? Mudou-se a lei de propósito para a Caixa, naturalmente.

Mas não chegou. Porque afinal havia outra. Outra lei, que obrigava na mesma Domingues e a sua gestão a divulgar o património. E aqui, com as águas à esquerda a ficarem mais revoltas, Costa e Centeno lá foram empatando Domingues, eventualmente acreditando que ele se esqueceria, que ele não insistiria, que ele não teria a coragem de bater com a porta e não executar o seu plano. Correu mal.

É evidente que o acordo para a não apresentação de património no Tribunal Constitucional existia. Por acção ou omissão, existia. Vem agora Centeno admitir que, por um "eventual erro de percepção mútuo", Domingues possa ter ficado com essa expectativa. É um argumento formalmente aceitável, mas que não convence ninguém. Tal como o cenário montado de uma conferência de imprensa do ministro das Finanças, seguido de um comunicado do primeiro-ministro com o afago implícito do Presidente da República. Tudo planeado ao milímetro, para tentar acabar com uma polémica criada pela actuação desastrada do próprio Governo.

É esse o mal do improviso, da chico-espertice, da fé no desenrascanço. Pode ser útil em momentos pontuais, mas não substitui uma estratégia. E não é forma de governar um país.
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comentários mais recentes
Adelaide 09.03.2017

Thank you for that reewvi! I have read the book several years ago and Bill and I liked the concept so much we bought the game Cash Flow and a set of tapes, etc.

Legru 14.02.2017

Lembram-se daquele spot publicitário da pasta medicinal couto? - Dizia: - É um artista português e usa ...

Anónimo 14.02.2017

Não houve nenhum governo ou PM que quando lhes convinha não utilizassem a "chico-espertice" . Faz parte , portanto .. a oeste nada de novo .

Anónimo 14.02.2017

Se o artigo tivesse terminado com a frase: "Os cães - muitas vezes cheios de razão - ladram, e a caravana passa", estava perfeito.

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