Celso  Filipe
Celso Filipe 25 de outubro de 2017 às 23:00

A China despertou, o Ocidente dorme 

Ao contrário do Ocidente e dos EUA, onde o tempo dos políticos é rápido e escrutinado pelo voto, na China, o tempo do PC é eterno e inquestionável, uma circunstância que permite planear e executar sem receio de perder o poder numa qualquer eleição.

China continua o seu percurso para atingir o estatuto de maior superpotência mundial. Tudo começou pela transformação económica do país e a reinvenção do conceito de capitalismo, transformando o Estado no maior capitalista de todos. Aproveitando a crise financeira de 2008, a China iniciou uma trajectória expansionista, provendo a criação de potentados do transporte marítimo e depois assegurando o fornecimento do bem de que mais precisava para dinamizar a sua indústria, o petróleo.

A base desta estratégia é um poder forte, no qual o Partido Comunista (PC) e o país são uma realidade una e indivisível. Uma estratégia à qual todos obedecem, mesmo os que se apresentam no exterior com o eufemismo de empresários chineses. São empresários porque o comité central do partido o permitiu e deixarão de o ser se perderem a confiança deste mesmo comité.

Esta linha condutora ficou ainda mais sublinhada no congresso do PC que ainda decorre, o qual deu ao actual líder do país, Xi Jinping, um estatuto equivalente ao de Mao Tsé-Tung. A materialização desta importância foi feita através da decisão de incluir na Constituição do partido (que para todos os efeitos é a do país) o pensamento de Xi Jinping como referência ideológica, uma honra que até agora era exclusiva de Mao.

Na prática, isto significa que Xi Jinping passa a ser "inatacável", como salienta Bill Bishop, editor do Sinocismo, uma publicação sobre política chinesa. Ou seja, a partir de agora, Xi Jinping, enquanto guru ideológico sacralizado do PC, goza de uma legitimidade reforçada para continuar a sua marcha lenta de afirmação externa do país. A Xinhua é eloquente neste propósito. "Em 2050, dois séculos após as guerras do ópio, que mergulharam o Império do Meio num período de dor e vergonha, a China está preparada para recuperar o poder e voltar a escalar para o topo do mundo", escreve a agência de informação oficial do regime.

Ao contrário do Ocidente e dos EUA, onde o tempo dos políticos é rápido e escrutinado pelo voto, na China, o tempo do PC é eterno e inquestionável, uma circunstância que permite planear e executar sem receio de perder o poder numa qualquer eleição.

Esta tarefa é musculada pela frente financeira (só em 2016, os chineses investiram 34,5 mil milhões de dólares na Europa) e conta com duas ajudas substantivas: o Brexit e uma liderança errática dos EUA. Somadas, estas parcelas contribuem para alimentar a visão da afirmação de uma China imperial cujo brilho se estenderá pelo mundo. Até agora tudo joga a seu favor.

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