Celso  Filipe
Celso Filipe 10 de abril de 2017 às 00:01

A desconstrução europeia

Jeroen Dijsselbloem foi infeliz ao declarar que os países do Sul gastam o dinheiro em bebida e mulheres. Foi infeliz e inverdadeiro, facto que pode ser verificável nas estatísticas.
A afirmação do presidente do Eurogrupo proporcionou momentos de refinado humor, criou uma onda de choque e possibilitou que os políticos do Sul, entre os quais António Costa, se servissem da indignação para pedirem a demissão de Dijsselbloem. Que, de facto, não tem condições para continuar no cargo, atendendo ao clima de desconfiança que entretanto assentou arraiais.

A última troca de palavras a este propósito, antes da reunião da passada sexta-feira do Eurogrupo, foi exemplar. Ricardo Mourinho Félix, secretário de Estado das Finanças, disse a Jeroen Dijsselbloem estar chocado com as declarações deste, para capitalizar um eventual descontentamento da opinião pública portuguesa, ao que o holandês retorquiu, mostrando-se também chocado com a reacção do Governo português.

Este folclore corrobora a tese de que a política é sempre decepcionante, espraiando-se com uma dolência voraz na espuma dos factos e tornando invisível o essencial. As asserções de Dijsselbloem e as réplicas dos visados são orgásticas e alimentam o espaço mediático, mas são inconsequentes e classificáveis na categoria de "fait-divers". Alimentam nacionalismos bacocos, invadem o espaço dos "soundbites" e subvertem as prioridades.

Por trás delas esconde-se o essencial, o preconceito, a incultura e a fragilidade dos políticos que dominam a arena política europeia. Porque, na realidade, a afirmação de Dijsselbloem nasce de um preconceito e da tentativa de agradar a um grupo de interesses.

Isso é o pior de tudo, porque revela a fragilidade da construção europeia. Numa Europa séria e comprometida com o seu futuro colectivo, o presidente do Eurogrupo teria um conhecimento estruturado dos Estados-membros e não uma opinião baseada em estereótipos. E quando são os próprios líderes europeus a formularem leituras da realidade assentes em trivialidades e a mostrarem-se cinicamente chocados com a celeuma que criaram, torna-se impossível pedir aos seus cidadãos que se comprometam cada vez mais com o projecto europeu.

O caso Dijsselbloem é significativo na medida em que constitui mais um episódio da desconstrução europeia que está em curso e em passo acelerado.
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mais votado surpreso 10.04.2017

Olha para este!.. O Dij afirmou certeiramente e só os irresponsáveis do PS português de "indignaram".É verdade que nem a 3ª auto-estrada para o Porto,nem os candeeiros Siza, são "alcool e mulheres"(a Nandinha pencuda não deu por nada),mas para um país que come do crédito,esbanjou-se dinheiro

comentários mais recentes
antunano 10.04.2017

Mentira é o que pretendes dizer. O que o holandês quis dizer foi que os países como Portugal que continuam a gastar o que não têm naquilo que menos falta faz. Que são promoções e admissão de gente para fazer nada no Estado a fim de comprarem votos com dinheiro emprestado para todos pagarem. Costa continua a aumentar a nossa dívida em comprar votos como fez Sócas que nos deixou na miséria . E é lamentável que alguns jornaleiro embarquem nestas mentiras, como lhe disse há poucos dia Jaime Gama , que , ninguém o quis ouvir.

Eduardo lopes Rodrigues 10.04.2017

O tema "Desconstrução Europeia" é atualíssimo. O episódio referido, para além de ser o eco de "preconceitos múltiplos", e de outras formas de ignorância , acelera os riscos do regresso a situações deploráveis de falta de liberdade de escolher, e, só se pode combater por uma cultura de verdade

Eduardo Monteverde 10.04.2017

!000 estudantes portugueses expulsos de um hotel no sul de Espanha por distúrbios causados por causa do álcool.
Até parece que também havia mulheres. Mas o holandês é que é maluco.

xxx 10.04.2017

Passado tanto tempo, continuam a distorcer as palavras do holandês. Porquê? Quem quer de facto o fim da UE? O Sr. Celso Filipe parece trabalhar para esses, com mais afinco que Dijsselbloem.

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