Raul Vaz
Raul Vaz 17 de maio de 2017 às 00:01

A fé de António Costa

É preciso evitar o deslumbramento. Eis a chave para fazermos o que tem de ser feito. Marcelo tem razão. Porque está a olhar para dentro de si, a procurar travar o impulso que o faz diferente e melhor, a transmitir ao outro, o que vê tudo "rosa", e também ao outro que somos todos nós, o cuidado devido com a volatilidade do momento e com as partes que não convém, mas têm tudo para se extremar.
Vivemos dias bons, é preciso celebrar. Sim, sejamos optimistas, sem deixarmos de ser como somos. Marcelo bem tenta abrir espaço para que todos caibam na foto destes dias. Mas é tudo ao contrário do que está a acontecer. Pedro Passos Coelho não foi visto no fim-de-semana que assombrou Portugal. É preciso evitar o deslumbramento. Mas quem pode fazer isso?

Um primeiro-ministro ateu entre o meio milhão de Fátima, um presidente de câmara benfiquista em Lisboa, um país a conquistar o mundo pela música do mérito e do talento. Não sei se somos assim, mas parece querer dizer que sempre somos excessivos.

Somos desmedidos quando a bola entra e ficamos campeões, quando saímos de um aperto dos grandes e encontramos uma saída limpa que nos leva por caminhos nunca antes experimentados. Quando três dias valem por mil.

É bom suster o assombro. Sem deixarmos de olhar para o que está: a economia cresce acima de todas as previsões, a Europa cresce, a Alemanha e Espanha compram mais, as exportações ajudam, o investimento acorda, o desemprego diminui. Et voilà! O Presidente de fé procura moderar a fé do primeiro-ministro. Mas o optimista irritante sabe bem que ser cauteloso num país com claras deficiências estruturais só valoriza uma conjuntura que (lhe) oferece condições políticas surpreendentes.

Hoje, António Costa pode dar-se a luxos. Um exemplo com significado: a tolerância de ponto do 12 de Maio, que irritou a direita irritada. João Miguel Tavares, um talento que se representa a si próprio, escreveu no Público um texto com o título de desafio: "Caro António: fica você com os meus filhos, ok?" E o António, um talento maior, ficou-lhe com os filhos.

João Miguel levou as crianças, permitiu que fossem fotografadas na sala de São Bento, com o canal Panda ligado. Marcelo tem razão. É preciso evitar o deslumbramento. É esse o problema de uma direita que observa, espanta-se e, sem dar por isso, rende-se. Se eu tivesse filhos da idade dos do João Miguel Tavares, escreveria: Caro António, eu também quero, ok? Mas seria a gozar. Porque com o primeiro-ministro que arriscou a onda e tem o vento a seu favor, só há um jogo seguro: é não entrar no jogo.

Marcelo bem pode pedir à direita que se acalme e não se ponha a medir méritos com António Costa. Talvez o silêncio de Passos tenha sido, no fim-de-semana histórico, uma medida sábia. Um país deslumbrado é imbatível. E a fé dos ateus também move montanhas. 

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Boa análise de Raul Vaz.

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IS 19.05.2017

Boa análise de Raul Vaz.