Tiago Freire
Tiago Freire 24 de outubro de 2017 às 23:00

A fria renovação dos votos

Uma moção de censura é sempre um ponto simbolicamente importante em qualquer legislatura. Mesmo que a prática demonstre que não serve para nada, há um ritual parlamentar muito próprio, umas três horas em que o Governo está num xeque formal, ainda que não substancial.

O desfecho foi o previsível e conhecido há muito, pelo que não é esse o ponto de análise mais importante. É preciso lembrar as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, no discurso mais duro que se lhe conhece, na sequência do desnorte do Governo e de António Costa. "Se na AR há quem questione a capacidade do Governo para realizar estas mudanças indispensáveis e inadiáveis (...), a mesma Assembleia que clarifique se quer ou não manter em funções o Governo", disse. 


Ou seja, mais do que um teste à sobrevivência do Executivo, que nunca esteve em causa, este foi um teste à solidez desta solução governativa e à convicção dos seus protagonistas.

Discutia-se o Governo, mas discutia-se também os incêndios. O debate, aliás, foi demasiado personalizado nos ataques directos a António Costa, quase como se tivesse sido ele a andar pelas florestas de fósforos na mão. Esta sobreposição de temas - Executivo e incêndios - provocou uma contradição insanável. Costa pedia consensos - que são efectivamente indispensáveis - na questão da reforma do mundo rural, mas o ambiente de uma moção de censura é necessariamente conflitual. Resultado? Discutiu-se floresta e incêndios no pior enquadramento possível.

Sobrou o resultado, a validação formal da geringonça. Se levarmos literalmente as palavras do Presidente, está tudo bem: a Assembleia clarificou que quer manter em funções o Governo.

A história acabou por ser outra, logo abaixo da superfície. A esquerda foi dura para com o Governo, e parca, muito parca, em apoio audível no hemiciclo. Tal como a cola na origem da geringonça foi um medo comum, o de Passos Coelho e do PàF, aqui foi o oportunismo político de Assunção Cristas. Com um ponto muito importante: a queda do Executivo nesta altura não seria abrir à direita a porta do regresso ao poder, e sim estender a passadeira da eventual maioria absoluta ao PS. A decisão de Bloco e PC era uma não decisão.

Neste casamento de conveniência - que apesar de tudo tem corrido melhor do que as expectativas iniciais - o dia de ontem foi uma fria e desapaixonada renovação dos votos. Na política não existe o conceito de "até que a morte nos separe".
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Nuno Há 3 semanas

"não há machado que corte a raiz ao pensamento" Pensar que se a PAF fosse governo, os incêndios não matariam ninguém, é política não partidária, da melhor. Até que limite se levará a culpa política? Cada vez estica mais. Qualquer dia alguém é levado por uma onda e o ministro demite-se porque o paredão devia há muito estar construído. Uma estrada varrida pelo fogo e culpar-se, quase de homicídio, um ministro, ou ministra, um governo, mostra apenas o grau de evolução do país, quer dos governantes, quer dos governados. Em vez de se agradecer o esforço dos bombeiros e de todos os que tentaram ajudar, atiram-se-lhes pedras. Esperem pela próxima.

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