Celso  Filipe
Celso Filipe 03 de julho de 2017 às 00:01

A guerra do Solnado

Não fosse a gravidade dos factos o roubo de armamento em Tancos seria material de primeira água para reinventar a guerra do Sonaldo, que ainda hoje, pelo seu "nonsense", é uma peça brilhante de comédia.
No caso de Tancos, este "nonsense" é servido em doses generosas por quem tem responsabilidades, da hierarquia militar a quem os tutela, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes.

Há um ponto de contacto entre o que se passou em Tancos e em Pedrógão Grande, a constatação de que a palavra prevenção foi banida do dicionário de quem tem responsabilidades, sendo substituído pelo substantivo desleixo. Em Pedrógão morreram 64 pessoas, o material militar roubado em Tancos dá, infelizmente, para matar muitas mais.

Existindo este factor de união entre os dois casos, sobressai, no entanto, uma diferença substantiva. No incêndio de Pedrógão ocorreram factores impossíveis de controlar (a temperatura, o vento), enquanto em Tancos todas as variáveis eram susceptíveis de serem monitorizadas e/ou alteradas por decisão humana.

Em vez disso, procedeu-se com um espantosa incúria e reage-se com uma desfaçatez ainda maior. O chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, garantiu que os planos de segurança e vigilância foram cumpridos e ainda ajuizou: "Estes roubos podem acontecer em qualquer país e em qualquer Exército, desde que haja vontades e capacidades". Os comentários do general são desmentidos pelo Diário da República de 30 Junho, dois dias após o roubo, onde o ministro de Defesa aprova o concurso para reconstrução da vedação dos paióis nacionais de Tancos. Ou seja, as fragilidades destas instalações já eram conhecidas há muito.

Por seu turno, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, tirou ilações políticas da ocorrência, gravíssima, mas continua sentado no seu lugar como se o que passou tenha sido apenas um percalço numa caminhada segura.

E falta ainda Marcelo Rebelo de Sousa, que enquanto Presidente da República, é comandante supremo das Forças Armadas. O chefe de Estado, no sábado, garantiu que este não era ainda o momento adequado para se pronunciar, mas é bom que o faça e rapidamente. O roubo em Tancos exige decisões musculadas e penalizações severas. Até agora, nada disso aconteceu. Para já, estão todos a comportar-se como o capitão que anunciou a Raul Solnado o final de guerra neste termos: "Acabou. Olha que veio cá o fiscal e não tínhamos licença de porte de armas".
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