Tiago Freire
Tiago Freire 17 de julho de 2017 às 00:01

A noite e o dia de Costa e Passos

A via alternativa até pode funcionar em casos específicos, mas acaba sempre por pagar-se no médio prazo.

Passos Coelho e António Costa discordam em quase tudo, mesmo que a execução orçamental fure a retórica e mostre semelhanças inesperadas. E há uma área em que as diferenças são tão abissais que acabam por marcar formas opostas de estar na política: a maneira como, enquanto líderes governamentais, lidam com as empresas privadas. 


A recente e lamentável diatribe de Costa - em pleno debate do estado da nação - acerca da Portugal Telecom ainda gera dúvidas. Aquilo estava preparado ou o primeiro-ministro descontrolou-se? Acredito mais na primeira tese, porque as palavras excessivas de Costa são absolutamente coerentes com a sua postura noutras situações.

Foi assim na TAP, foi assim no BPI, foi assim no Banif, foi assim no BCP. É até assim no Montepio, embora aqui o primeiro-ministro esteja a disfarçar bem. Para António Costa não há empresas públicas e empresas privadas, há o interesse nacional, ou melhor, aquilo que ele entende ser o interesse nacional, a que tudo se deve submeter. É por isso que comenta, ataca, interfere e, em última análise, resolve. Bem ou mal.

Passos Coelho é a noite para o dia de Costa. Um verdadeiro institucionalista, não se mexe da máxima "cada macaco no seu galho". Basta ver a trapalhada que foi a queda do BES, com o governo a abdicar de uma decisão política e a alinhar no caminho traçado por Banco de Portugal, BCE e Comissão Europeia. O que quer que achemos da decisão, alguém acredita que o BES teria sido liquidado como foi, com um governo socialista?

Já Marcelo é a figura mais complexa de todas. Todo o mundo intelectual que o habita não lhe retirou um milímetro de pragmatismo. A recepção pública e publicitada a Pinto Balsemão- no mesmíssimo dia em que a Altice anunciou a compra da Media Capital - aproximam-no da escola de Costa.

Qual dos modelos é o melhor, entre a interferência dirigista de Costa e o alheamento formalista de Passos? Por mais desresponsabilização política que isso possa implicar, é preferível que o Estado se dedique ao que é do Estado, salvo excepções que têm de ser muito raras e explicadas com toda a clareza. Numa economia de mercado como a nossa, aberta ao investimento - nomeadamente estrangeiro - é fundamental que os agentes saibam com o que contam, e que isso esteja vertido na lei e no princípio praticado da separação de poderes. O resto são humores e interpretações necessariamente subjectivas do que é, em cada momento e em cada situação, o interesse nacional.

A via alternativa até pode funcionar em casos específicos, mas acaba sempre por pagar-se no médio prazo.
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mais votado Anónimo Há 1 semana

A solução é flexibilização do mercado laboral, coisa que já existe em grande medida nas economias mais desenvolvidas mas não em Portugal, e Estado de Bem-Estar Social, coisa que já existe em grande medida nas economias mais desenvolvidas mas não em Portugal porque o Estado de Bem-Estar Social português é só para uma parte da população e por isso temos uma Função Pública (e agora também um sector bancário) de Bem-Estar Social, mas não um Estado. Para a sustentabilidade dos Estados, a competitividade das economias e a equidade das sociedades do mundo desenvolvido, os custos do excedentarismo e da blindagem anti-mercado que o garante e perpétua são incomensuravelmente maiores do que aquele Estado de Bem-Estar Social universal num mercado efectivamente concorrencial e flexível.

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surpreso Há 1 semana

Eis o "his master´s voice".Deixa lá que a liquidação do Banif e o saldo no Novo Banco são brilhantes.Vigarices do perdedor Costa ,contra verdade do vencedor usurpado, Passos.Favores do PCP ,cuja factura ainda não se conhece

Anónimo Há 1 semana

Este costa é um oportunista, com uma semelhança flagrante ao seu amigo Sócrates. Ele é que sabe, ele é que manda e por isso vai cair sozinho...

Anónimo Há 1 semana

Repúblicas das Bananas como a Grécia e Portugal não tem credibilidade nem autonomia económico-financeira porque não tem tido políticas que permitam a criação, captação e fixação do melhor e mais adequado talento e capital disponível nos mercados globais de talento e capital. Sem flexibilização dos mercados laborais e fortalecimento dos mercados de capitais portugueses, Portugal nunca vai participar nas revoluções industriais como actor principal, secundário ou mesmo figurante. Será eternamente o expectador que chega ao evento sempre perto do acto final e por isso fica sem perceber o pouco daquilo que viu.

Anónimo Há 1 semana

Banqueiros de retalho e geringonceiros anarco-sindicalistas do compadrio resgate-dependente, não tenho rendimentos ou património para sustentar as vossas vidas vividas acima das vossas possibilidades. Desinchem s'il vous plaît. "We will gradually enter a time where having a lifetime employment based on tasks that are not justified will be less and less sustainable - we're actually already there." - Emmanuel Macron www.msn.com/en-gb/video/other/french-civil-servants-no-more-jobs-for-life/vi-AAeGlDD

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