Tiago Freire
Tiago Freire 09 de dezembro de 2016 às 00:01

A ofensiva laboral da esquerda

Nem o nosso enquadramento internacional nem a reestruturação da dívida. A cola que une a geringonça pode começar a mostrar fissuras em algo mais doméstico: a legislação laboral.

Tal como o Negócios noticia na edição de hoje, o Governo não está com grande disponibilidade para mexer nas regras da contratação colectiva, ao contrário do que a esquerda - e sobretudo a CGTP - defende. A questão da caducidade das convenções é um tema querido da esquerda, que pretende o fim desse mecanismo, que tenderá a fortalecer a posição negocial dos patrões. O problema é que esta é apenas uma parte do que está em causa na concertação social, e é preciso dar algo em troca de um salário mínimo mais generoso, por exemplo.

 

Mais do que isso, o pano de fundo é muito mais vasto do que o toma lá/dá cá entre patrões e sindicatos. Porque é na legislação laboral que a CGTP sabe que tem uma oportunidade de ouro para deixar uma marca  para vários anos. A geringonça está sólida mas não dura para sempre, e é altura de encaixar mais alguns ganhos concretos.

 

O tema da rigidez das leis laborais é já um clássico, e na verdade tudo vai dar a um modelo mais flexível - mais poder às empresas e maior adaptabilidade e menos direitos dos trabalhadores - ou mais rígido, com os direitos dos trabalhadores a sobreporem-se à capacidade organizativa e de gestão das empresas, nomeadamente em tempos de crise. Quando a troika aterrou na Portela, este foi um dos temas que mais mereceu a sua atenção, porque considerava - e com razão - que as leis deixavam as empresas de mãos atadas e tornavam o mercado de trabalho ineficiente. As leis foram mexidas - por exemplo com a descida das indemnizações por despedimento - e pelo meio houve vários outros atropelos mais graves, como o corte dos apoios aos desempregados, sobretudo quando o desemprego escalou de forma rápida e gravíssima.

 

Agora, com um Governo de reversões e necessitado do Bloco e do PCP, é no trabalho que estes partidos vão focar atenções, com um objectivo muito claro: apagar, também e sobretudo aqui, as marcas da troika.

 

Mas o Governo deve resistir a essa ofensiva. Há mexidas pontuais necessárias, sim, mas o nosso regime não precisa de ser mais rígido do que é, pelo contrário. Mais rigidez tem como reverso da medalha menos capacidade de gestão e mais ineficiências nas empresas, menos mobilidade laboral, o prolongamento de problemas sérios que ninguém parece querer resolver (o desemprego jovem e o de longa duração). Com as fichas todas colocadas na protecção dos empregados - os bons e os maus -  não é de estranhar que o mercado de trabalho continue a estar fechado, ou gritantemente precário, para quem está fora dele. 

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mais votado carlitos335 09.12.2016

A geringonça é um Case-Study político !
Todas as análises sobre a geringonça chegam às mesmas conclusões.
- BE e PCP continuam (em despique de louros) a pressionar o governo com medidas demagógicas mas que rendem votos e satisfazem sindicatos e dependentes do estado. A moeda de troca é não deixar cair o executivo.
- PS tenta ( sem grande sucesso ) atingir as metas que se comprometeu, para garantir as ajudas comunitárias, dos mercados e do BCE. Costa, com a sua conhecida lábia, vai fingindo aceitar as pressões da extrema esquerda,
- O país está dividido em dois. Os funcionários e dependentes do estado, por um lado, e os privados e empresas por outro. Está tudo parado, com crescimentos irrisórios e sem perspectivas.
- A geringonça sabe que o seu seguro de vida é manter Costa em funções, custe o que custar, não porque ele está a fazer alguma coisa de útil ao país, mas simplesmente para obstruir o centro direita de voltar ao poder.
É um país em coma enquanto a UE não desligar.

comentários mais recentes
Anónimo 10.12.2016

Falta falta algo na legislação laboral, que a grande maioria dos paises comunitários já possui à imensos anos ; é crime a pratica de mobbing/assédio moral . Como será possivel que seja o trabalhador a demonstrar o ônus da prova ? E os danos morais, materiais ? Quem protege a vitima?

Anónimo 09.12.2016

Não se preocupe. A CGTP não é suicida e sabe o preço a pagar com governos de coelhos e portas.

carlitos335 09.12.2016

A geringonça é um Case-Study político !
Todas as análises sobre a geringonça chegam às mesmas conclusões.
- BE e PCP continuam (em despique de louros) a pressionar o governo com medidas demagógicas mas que rendem votos e satisfazem sindicatos e dependentes do estado. A moeda de troca é não deixar cair o executivo.
- PS tenta ( sem grande sucesso ) atingir as metas que se comprometeu, para garantir as ajudas comunitárias, dos mercados e do BCE. Costa, com a sua conhecida lábia, vai fingindo aceitar as pressões da extrema esquerda,
- O país está dividido em dois. Os funcionários e dependentes do estado, por um lado, e os privados e empresas por outro. Está tudo parado, com crescimentos irrisórios e sem perspectivas.
- A geringonça sabe que o seu seguro de vida é manter Costa em funções, custe o que custar, não porque ele está a fazer alguma coisa de útil ao país, mas simplesmente para obstruir o centro direita de voltar ao poder.
É um país em coma enquanto a UE não desligar.

ESKAFIAS 09.12.2016

É uma alegria, para os seguidores dos corruptos e prevaricadores da Sociedade bem como, para a direita!... Só ficam satisfeitos quando a coisa corre mal!... Afinal o que conta, para alguns dos artistas ditos Jornalistas!... Os Partidos ou o País?... RECICLEM-SE e deixe de denegrir a imagem do País, que vos viu nascer!...