André  Veríssimo
André Veríssimo 18 de julho de 2017 às 00:01

A operadora “non grata”

Não estamos aqui a fazer política, este é um forte projecto industrial para o país”, respondeu Michel Combes, CEO da Altice, quando questionado sobre o ataque desferido pelo primeiro-ministro português num local com a carga do Parlamento. Só esta resposta enche-nos de vergonha. É pensar na imagem que o episódio projecta, para quem esteja a pensar investir em Portugal ou já por cá ande.

Há uma parte das críticas à PT que são justificadas: as que se referem às falhas no SIRESP. E entende-se a preocupação com práticas agressivas de gestão de recursos humanos que prenunciam despedimentos. O que não se compreende é que, por isso, um primeiro-ministro desaconselhe a utilização de uma operadora em detrimento de outras e lhe lance o espectro da quase falência. Sem "golden share", o Governo resolveu recorrer à figura da operadora "non grata".

O ataque é inseparável da intenção da Altice em comprar a Media Capital. Sabe-se que o estilo de gestão da capital de risco de Patrick Drahi, predadora nas aquisições e leonina nas reestruturações, não agrada à esquerda. A Altice é uma empresa altamente alavancada, corre elevados riscos se os ventos em popa deixarem de soprar nos seus negócios e nos mercados. Mas só isto parece pouco para tanta irritação. O que leva a suspeitar que são outros os reais motivos que levaram António Costa a levantar tais sombras sobre a Altice, que este fim-de-semana assumiram a forma de ataque concertado da geringonça, por causa da aquisição da dona da TVI. Se assim é, era importante que os partilhasse.

Podia ser um negócio estranho, difícil de justificar. Não é o caso. Ele tem um racional estratégico, que está a ser seguido noutras paragens. Os serviços de telecomunicações são cada vez mais uma "commodity", a penetração atingiu a maturidade e o ritmo de crescimento das receitas está a minguar. Por isso, volta-se a tentar uma fórmula que falhou no passado: valorizar o serviço pelos conteúdos e por aí arrecadar mais receita. Em 2000, no auge da bolha das dot.com, a AOL fundiu-se com a Time Warner, naquela que foi a operação mais paradigmática dessa tendência. Tal como o negócio, a estratégia ruiu. Dezassete anos depois é a AT&T a avançar para a verticalização, com a compra da mesma Time Warner, que nos seus activos conta com a HBO, a produtora da série "A Guerra dos Tronos", a mais popular em todo o mundo.
 

Por cá, vimos a primeira manifestação desta mesma estratégia na compra dos direitos televisivos dos clubes de futebol no final de 2015. Era uma questão de tempo até chegarmos aos grupos de media. A Nos e a Vodafone ficam pressionadas a agir.


Este novo domínio pode ser uma oportunidade para um sector acossado. Mas traz também ameaças. A Impresa teme pelos valores da "concorrência leal" e do "pluralismo". Numa economia de mercado, é aos reguladores que cabe zelar por eles.
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mais votado Anónimo 18.07.2017

Atentem num exemplo muito objectivo que nos chega da Dinamarca, economia escandinava onde existe ensino gratuito universal de inegável qualidade e os direitos adquiridos não se sobrepõem aos dos outros agentes económicos. "Universidade de Copenhaga despede 209 colaboradores, 255 rescindem voluntariamente" (Fevereiro de 2016) "University of Copenhagen fires 209 staff, 255 leave voluntarily" https://uniavisen.dk/en/university-of-copenhagen-fires-209-staff-255-leave-voluntarily/

comentários mais recentes
Anónimo 19.07.2017

A quantidade de comentadores que por aqui passam, fervorosos adeptos do estilo "Gordon Geko" é deveras impressionante. Muitos, de tão "verdes" que são, poderão nem saber quem foi tal personagem. Mas, todos eles representam a "cegueira" escolástica de similares psicoses sociais. Os tempos repetem-se.

Anónimo 18.07.2017

Ui, que medo! costa64 receia perder uma das suas máquinas de propaganda.

invicta 18.07.2017

Que nos acudissem, pois tal seria a barulheira feita pelo PS e restantes, se tivesse sido o Passos ou outro de direita a dizer estas barbaridades. Como é o Costa, está tudo bem e a esquerdalha está calada. Que pouca vergonha! Que falta de caráter...

Vergonha? 18.07.2017

Por se dizer A VERDADE? Não percebo.

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