Celso  Filipe
Celso Filipe 22 de Novembro de 2016 às 00:01

A passadeira vermelha

A entrada dos chineses da Fosun no capital do BCP é uma boa notícia, para o banco propriamente dito, e para o até agora seu maior accionista, a Sonangol.
A petrolífera angolana perdeu cerca de 1,5 mil milhões de euros desde que entrou no BCP, em 2008, e esta circunstância tem sido usada em Luanda como uma das armas para pôr em causa os predicados empresariais do ainda vice-presidente do país, Manuel Vicente, que enquanto líder da Sonangol foi o estratego da entrada da petrolífera na estrutura accionista do banco português.

A Fosun resolve os problemas de capital do BCP e dá-lhe conforto para lidar com o futuro. Por outro lado, os chineses, apesar da natureza questionável do seu regime político, não suscitam reservas ao Banco Central Europeu (BCE) e aos principais países da União Europeia, por exemplo, a Alemanha e França, onde Pequim tem feito investimentos vultosos. O mesmo BCE, que ficou de pé atrás como uma possível angolanização da banca portuguesa, olha com tolerância para uma eventual chinesização do sistema financeiro nacional.

A própria Sonangol acolhe de braços abertos a chegada da Fosun ao BCP. Sem dinheiro para recapitalizar o banco, os chineses emergem como o parceiro ideal, olhando ao histórico das relações económicas profundas entre Pequim e Luanda e à presença forte da China em Angola. O novo fôlego que a Fosun vai injectar no BCP poderá até ser uma forma de a Sonangol recuperar, ainda que a um ritmo lento, uma parte do muito dinheiro que foi perdendo no banco português.

O Governo, embora teoricamente alheio ao BCP, por se tratar de um banco privado, também esfrega as mãos de contente com este desfecho. Depois de resolvido o diferendo accionista no BPI e de ter sido encontrado um caminho para a CGD (mais tumultuoso do que o esperado), o acordo no BCP contribui decisivamente para criar um cenário de estabilização do sistema financeiro, a partir do qual lhe será possível suportar de forma mais efectiva a economia portuguesa. Fica assim a faltar o dossiê Novo Banco para virar a "página da instabilidade" do sector, uma promessa feita pelo primeiro-ministro, António Costa, em Março deste ano.

A única estranheza, neste final aparentemente feliz para todos, é a falta de preocupação dos agentes políticos e empresariais sobre a crescente influência dos chineses em Portugal. Com presença na energia, banca, seguros, saúde e até na aviação, a China assegurou já uma presença tutelar na economia nacional. E a passadeira vermelha continua estendida. 

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mais votado 5640533 Há 2 semanas

A inteligência e honestidade sendo escassas por estas bandas lógico será que venham de fora.

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5640533 Há 2 semanas

A inteligência e honestidade sendo escassas por estas bandas lógico será que venham de fora.