Celso  Filipe
Celso Filipe 01 de novembro de 2017 às 23:00

A pregar no deserto

O drama da seca segue-se à tragédia dos incêndios. Chorados os mortos, Portugal lembra-se agora da falta de chuva e começam a enumerar-se os prejuízos daqui resultantes. Surgem os lamentos do costume e os pedidos para fazer face a esta circunstância extraordinária. E o problema está precisamente aqui, na premissa de considerar a seca deste ano como algo de excepcional. Não é.
Em Maio deste ano, o presidente da CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal) deu uma entrevista ao Negócios e à Antena 1, no âmbito da iniciativa Conversa Capital, na qual colocava o dedo na ferida. "A seca veio para ficar e ficou. Nós estamos em período de seca permanentemente. O país, neste momento, tem uma alteração climática profunda, que está relacionada com o período de chuvas e com o ciclo das temperaturas, que modificou completamente o espectro da agricultura a nível nacional", afirmou então Eduardo Oliveira e Sousa.

Com o país a ansiar pelo calor de Verão, o aviso então feito pelo líder da CAP passou despercebido. Seis meses depois, a seca tornou-se um assunto vibrante e pleno de actualidade. E isto diz muito sobre a forma como o Estado olha para os problemas do país. Em vez de os prevenir corre contra o tempo para os remediar. Foi assim com os incêndios, e o procedimento repete-se agora com a seca, sendo que pelo caminho se vão fazendo os óbvios aproveitamentos políticos.

Nessa mesma entrevista, Eduardo Oliveira e Sousa sublinhou a evidência: "Para haver água é preciso que ela esteja armazenada ou esteja acessível." Ora, o que a realidade demonstra é que faltam em Portugal sítios para armazenar a água, sejam eles albufeiras ou barragens. O exemplo paradigmático do que o armazenamento de água pode fazer por uma região é o Alqueva. Uma área pobre e em declínio populacional acentuado ganhou uma vida nova, através da dinamização da agricultura e de outras actividades económicas, caso do turismo. O presidente da CAP acrescentava: "Esta solução [o Alqueva] tem de ser transportada para outras regiões do país", embora em escalas diferentes. Em Portugal, demasiadas vezes, o armazenamento de água, seja em albufeiras ou barragens, é travado com argumentos, por exemplo, ambientalistas.

O reverso da medalha é este, um país em seca permanente, incapaz de lidar com esta realidade que veio para ficar, fruto da irreversibilidade das alterações climáticas. Se nada se fizer para mitigar os efeitos desta mudança, daqui a uns anos os portugueses correm o risco de estarem a pregar no deserto. Literalmente. 

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
eduardo.tapadas Há 2 semanas

O mr. Tuga deu um bom retrato de si próprio. Reconheci-o perfeitamente. Para se construir o Alqueva, que o articulista agora exalta, levámos 50 ou mais anos, porque sempre houve opositores e nunca houve dinheiro. Qual foi o governo que avançou em definitivo? Investiguem. Já agora, se o Estado é proprietário de apenas 2% da terra, porque lhe compete resolver o problema da água e não aos privados? não serão eles que depois aproveitam? Já agora, não são as barragens que garantem que vai haver água. Só servem para armazenar quando há. Quando o Alqueva foi construído, os detratores afirmavam que nunca seria atingida a cota máxima. Poucos anos depois já era atingida e até ultrapassada. O que é que a CAP já fez pelos agricultores? É só política.

Mr.Tuga Há 2 semanas

O tuga a bater com o focinho na realidade!
Merecido!
O tuga BRONCO INCULTO SEM CIVISMO e SEM RESPONSABILIDADE AMBIENTAL continua a DEPERDIÇAR AGUA DA FORMA MAIS IGNOBIL E GROSSEIRA com total conivência dos "responsáveis"!
Só aprendem quando não existir uma gota de agua disponível! Tuga SEBENTO!