Celso  Filipe
Celso Filipe 07 de setembro de 2017 às 23:00

A procissão orçamental

Tocam os sinos da torre da igreja,/Há rosmaninho e alecrim pelo chão./Na nossa aldeia que Deus a proteja!/Vai passando a procissão." Este é o primeiro verso do poema "A Procissão", da autoria de António Lopes Ribeiro, que João Villaret declamava de forma magistral. É aqui trazido à colação para ilustrar o ritual do Orçamento do Estado. À frente da procissão vão o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, protegendo o santo Orçamento que vai no alto do andor.
Nas ruas, a ver passar a dita, estão os não-crentes, que nesta qualidade duvidam de tudo e exigem mais, por exemplo, igual tratamento para outras religiões que não a orçamental. Se olhar com atenção para o rosto destes não-crentes, identifica sindicalistas unidos no mesmo propósito, a exigência de aumentos salariais, progressões na carreira, etc. Há também políticos, geringonços ou não. Os primeiros tentam passar despercebidos na multidão, mas enquanto a procissão passa vão atirando frases como "a dívida não decide nada, quem decide é o povo português" ou "a precariedade ainda é regra, há pensões que são de miséria". Os segundos dizem que o diabo vai escondido na procissão e apontam o dedo aos que carregam o santo Orçamento, dizendo, se fôssemos nós a fazê-lo seria muito melhor e a procissão muito mais frequentada.

Os que acompanham a procissão representam as corporações. Caminham em todas, independentemente de quem carrega o andor. Dizem estar do lado da solução, mas apontam problemas. Pelo caminho, sussurram recados aos próximos do primeiro-ministro e do ministro das Finanças ao que vão. Por exemplo, a descida do IRC, a manutenção das leis laborais, o aumento do investimento público, regras mais simples para os senhores que vêm de fora e querem investir, e já agora para os que cá moram também.

O primeiro-ministro e o ministro das Finanças ouvem, tanto os recados que lhes chegam como as reivindicações manifestadas em alta voz e anuem com a cabeça a todas, mantendo uma fisionomia impassível. Invoque-se de novo a voz de Villaret para dar colorido à coisa. "E o povo ajoelha ao passar o andor./Não há na aldeia nada mais bonito./Que estes passeios de Nosso Senhor!"

Esta procissão, como procissão que se preza, acontece todos os anos. E quando terminar, no terreiro do Parlamento, acontecerá o mesmo de sempre. Uns vão tecer loas à sua beleza, outros que lhe faltou qualquer coisa para a tornar verdadeiramente inesquecível. Para o ano será melhor. A natureza dos rituais é esta. 
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comentários mais recentes
A memória é curta Há 1 semana

Oh, Mr.Tuga, olha que o material anestesiante do pulha Passos era ainda mais eficaz.

Mr.Tuga Há 1 semana

Pois....

O problema é quando o povão tuga imbecilizado e anestesiado ACORDAR PARA A DURA REALIDADE!

Anónimo Há 1 semana

Um Estado deficitário com uma dívida monstra às costas, metade dos portugueses ajoujados com impostos, a outra metade sem rendimento para os poder pagar, e as turmas do "queremos mais" todas a salivar para abocanhar mais umas gotas do suor dos portugueses. Simplesmente deprimente!