Celso  Filipe
Celso Filipe 15 de Novembro de 2016 às 00:01

A reinvenção da Europa

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos transportou para o domínio da incredulidade. Antes, o Brexit já tinha espantado. Muito antes ainda, a perpetuação no poder de Vladimir Putin criou um estado de alerta permanente.
A soma destes factos, conjugada com o crescimento político da extrema-direita em países como França, Alemanha e Itália, deixa o mundo, em particular a Europa, num estado de alerta, porque indicia que a democracia, espaço de generosidade, da tolerância e da pluralidade, está a perder terreno.

O tempo que hoje se vive é de ameaça a esses valores que se vinham dando como adquiridos. Não restam dúvidas de que figuras como Trump ou Putin são um perigo porque os princípios que defendem colidem, demasiadas vezes, com o exercício pleno dos direitos existentes numa sociedade democrática. Por exemplo, os três milhões de deportações prometidas por Trump remetem para a intolerância e a discriminação racial, conceitos que se consideravam em vias de extinção.

Talvez seja por isso hora de a Europa se apropriar de uma das lições referidas até à exaustão nos mais variados manuais de gestão, aquela que incentiva em transformar as ameaças em oportunidades. No contexto actual, as ameaças estão identificadas: Trump, Putin e a extrema-direita europeia. E as oportunidades que nascem daqui são as de a Europa, em particular a União Europeia, se afirmar política e economicamente como um território próspero, sensato, plural e com rumo próprio, que pela sua natureza seja capaz de se constituir como alternativa.

É claro que este caminho passa, antes de mais, pela regeneração da própria Europa e dos seus líderes, bem como por uma nova atitude dos seus cidadãos, a qual passa por substituir a indiferença pela participação cívica. A Europa, tal como está, será engolida pela réplica de fenómenos que se consideravam improváveis como as vitórias de Trump e do Brexit, que parecem conduzir a uma reaproximação entre os dois países, como aconteceu na década de 80 do século XX, entre Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Assim como pelo fantasma de uma nova Guerra Fria entre os EUA e a Rússia.

A Europa tem a oportunidade histórica de recuperar a relevância perdida, assumindo-se como uma alternativa aos extremismos. Mas para isso necessita de se reinventar e refazer a sua narrativa de construção política e económica, em boa parte responsável pelo actual estado das coisas. 

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mais votado 5640533 Há 3 semanas

Os líderes europeus regenerarem-se ? Para isso é preciso inteligência, visão e n mais qualidades que eles não têm. Se não fosse Mário Draghi o euro já estava defunto.

comentários mais recentes
Boy Podre Há 3 semanas

Grave foi a intervenção do Presidente da Comissão Europeia ao classificar Trump de ignorante. Goste-se ou não vai ter que se trabalhar com ele.

nb Há 3 semanas

As ameaças de extrema esquerda não existem? São uns santos! Então o que se passou na Grécia, tentativas em Espanha e em Portugal é o que se vê.

5640533 Há 3 semanas

Os líderes europeus regenerarem-se ? Para isso é preciso inteligência, visão e n mais qualidades que eles não têm. Se não fosse Mário Draghi o euro já estava defunto.