André  Veríssimo
André Veríssimo 07 de dezembro de 2016 às 00:01

A renegociação faz o seu caminho

A dívida é para renegociar, mas só daqui por um ano, assumiu António Costa. O tema vai ficando maduro por cá, mas também na Europa, com concessões à Grécia. A água dura vai amolecendo a pedra. E antes se faça a bem, do que à bruta.
A dívida pública cresceu além do que um país com a economia de Portugal, e sem autonomia na política monetária, pode suportar. Está como muitos créditos concedidos pela banca, que são renovados com a consciência de que nunca poderão ser reembolsados, apenas porque é preciso esperar por dias mais favoráveis para reconhecer a perda. Vai-se gerindo.

Lembra-se do "Manifesto dos 74", em 2014? Na altura, foi recebido com um coro de violentas críticas. Vinha a destempo, é certo. Mas teve o mérito de colocar o tema em cima da mesa, de onde, embora a tempos mais discreto, nunca saiu. Agora afirma-se.

A presidente do Conselho de Finanças Públicas, Teodora Cardoso, juntou-se na terça-feira ao crescente coro afirmando que "a reestruturação da dívida é algo de que Portugal vai precisar". Porque há uma factura anual para pagar em juros a rondar os 8.000 milhões de euros. E porque o preço tenderá a aumentar.

A opinião dominante é de que o BCE vai na quinta-feira anunciar que a impressora vai funcionar durante mais um meses, de preferência até ao final de 2017, afastando males maiores. Mas também é verdade que a conversa sobre a insustentabilidade desta política monetária nunca foi tão intensa. Em suma, os juros da dívida portuguesa acabarão por subir mais do que já subiram. E se uma dívida de 80% do PIB (como em 2009) seria gerível com um custo médio de 4% ou 5%, uma de 130% não é.

Ficámos a saber pela entrevista do primeiro-ministro à RTP que temos de aguentar pelo menos até Outubro do próximo ano, quando se realizam as eleições na Alemanha, até que o tema possa entrar na agenda europeia. A bem ou a mal, há-de entrar. Espera-se que a bem e no quadro da União, sob a forma de uma redução de juros e extensão de maturidades. Não resolverá tudo, como um perdão, mas resolverá bastante. E um perdão traria outros pecados, nomeadamente para o sector financeiro, que ainda se está a reerguer.

Não é certo que esta reestruturação suave aplacasse os anseios de Bloco e PCP. Francisco Louçã, por exemplo, defende mais. As declarações de António Costa têm, claro, de ser lidas também como um apaziguamento das ansiedades dos parceiros, e um aviso de que não valerá a pena insistir muito no tema nos próximos meses. Havendo uma renegociação, levanta-se a questão do que fazer com a folga orçamental que ela trará. Se for para aumentar despesa pública e gerar mais dívida, de pouco valerá ao país. Se servir para "comprar" uma reforma séria do Estado e libertar o peso deste sobre a economia, que venha ela, mesmo que só daqui a um ano. 

A sua opinião5
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
comentar
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
mais votado surpreso 06.12.2016

Mentira!Não haverá negociação!Os países a sério não vão dar dinheiro aos gastadores de Portugal.A Grécia terá tido congelamento e garantia da taxa de juro .Recebemos 26 mil milhões nestes 7 anos.Queriam mais?

comentários mais recentes
VC 09.12.2016

Penso que o problema não está colocado da forma correta. Os juros que Portugal paga pelo atual stock de divida são baixos. O problema vai ser o 'roulement', ou seja, constituir nova divida para ir pagando a existente. Se o BCE deixar de dar a mão não vai ser fácil: novo resgate!

pedro moreira 07.12.2016

os Politicos Satãnicos pos 25 Abril levaram portugal 3 vezes a bancarrota e agora querem renegociar a divida so se a Europa estiver a dormir e que aceita a renegociação.

jose 07.12.2016

Que discurso tão bafiento. Perdão da dívida para fazer reformas? Brinca este articulista júnior? Com o perdão da dívida, o Arménio e a Fenprof, quererão aumento de salários, e os amigos das obras públicas, mais estradas e pontes! Vão roubar para outro lado.

Mr.Tuga 07.12.2016

Com os tugas politiqueiros DESgovernantes imbecis, em particular com geringonços despesistas ruinosos isso só serviria para gastar mais em inutilidades...

ver mais comentários
pub