André  Veríssimo
André Veríssimo 31 de agosto de 2017 às 23:00

À sombra das sondagens

A economia cresce, não 2,8% mas já 2,9%, o maior crescimento em 17 anos e, no entanto, há um risco que paira sobre o país: o da complacência.

A história recente mostra que quem nos governou raramente soube aproveitar os tempos de bonança para prevenir futuras tempestades. E a história repete-se com este Governo.

Claro que baixar o défice e a dívida pública são passos nesse sentido. É justo reconhecer um esforço para resolver alguns dos desequilíbrios estruturais de que a economia portuguesa padece. Houve preocupação em criar medidas que facilitem a recapitalização das empresas. O problema do malparado está a ser enfrentado. Mas não chega.


É preciso semear as condições que permitam sustentar taxas de crescimento mais elevadas, tornar as Finanças Públicas e a economia mais resilientes aos ciclos económicos. E o que se vê é um natural contentamento com os números mais robustos do crescimento que vão chegando, mas uma insensibilidade ao que se pode fazer para os alimentar no futuro.


Ainda que o país precise de investimento público, fazer das obras públicas o grande desiderato é demasiado curto. António Costa disse em Abril que a expressão "reformas estruturais" o arrepia, que "qualquer cidadão normal fica logo alérgico". O que arrepia é o primeiro-ministro bastar-se na semântica para as descartar.

A frase é reveladora – o que realmente incomoda o primeiro­-ministro é a impopularidade das reformas. Porque elas significam muitas vezes afrontar corporações, interesses instalados que se crêem inamovíveis. Ainda que a paz política e social de que o país tem gozado seja um activo importante, até para a actividade económica, fazer dela um valor absoluto e intocável significa hipotecar o potencial futuro.


Agora que o crescimento está de volta, em parte porque o Governo devolveu rendimentos, mas em parte ainda maior porque a envolvente externa é também muito mais benigna, o que vemos são corporações a exigir mais benesses. Algumas justas, outras nem tanto.

Por muitos Simplex que nos vendam, a burocracia continua a ser um entrave. A justiça, outro ainda maior. O Estado e a sua despesa continuam por racionalizar. A fiscalidade é demasiado elevada e complexa. Olha-se para o investimento e a construção é o que mais o anima, não que isso seja mau em si, mas não é o que o país precisa.

Consensos. Esses sim seriam importantes. E ainda que a solução governativa possa ser considerada uma evolução saudável da democracia portuguesa, a incapacidade para fazer acordos duradouros a longo prazo em áreas prioritárias são reveladores de imaturidade. António Costa pede-os, mas é só retórica.

Sentado à sombra da sua popularidade, que nem Pedrógão ou Tancos foram capazes de abalar, o Governo é um gestor, financeiramente apurado e cuidadoso, de benefícios. Tudo o mais arrepia.
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mais votado Anónimo Há 2 semanas

No nosso pais quem governa toma as decisões apenas com duas preocupações, agradar aos governados (a eleitoral) e fazer passar as decisões na assembleia (a politica), a terceira preocupação e de longe a mais importante, analizar os efeitos a médio prazo da decisão tomada (o bom senso e prudencia), nunca é tida em consideração. Por isto é que seremos eternamente pobres e sujeitos a falir ciclicamente. Em 43 anos já falimos três vezes, o que deve ser record mundial.
Quanto ao bom crescimento económico, deve-se essencialmente a dois fatores, as poucas reformas estruturais que foram feitas no tempo da troika e, mais importante, o boom do turismo, o crescimento económico está a ser feito à base do consumo interno, muito dele feito pelos estrangeiros que nos visitam. Para este boom nós não contribuimos nada, por razões externas (terrorismo, moda...) aconteceu.
Mais uma vez estamos a ir a reboque dos acontecimentos, não os prevemos nem os influenciamos com a devida antecedência.

comentários mais recentes
vacas gordas Há 2 semanas

O tempo das vacas gordas foi com uma múmia pré ressuscitada, enquanto 1º ministro, ate limpava o rabiote dele, e dos amigos, com notas de euros, que pertencia aos portugueses, não o soube poupar, deu para todos portugueses de 1ª, e alguns de 2ª,quando acabou, fujiu, e acusou outros de monstros, PÍU,

Anónimo Há 2 semanas

Ora aqui está um artigo exemplar. Como tenho dito muitas vezes neste periodo é fácil governar no dia a dia, porque as condições internas e externas são favoraveis. Mas o futuro ? o que vai ser?
Ninguem é capaz de nos governar com reformas médio e longo prazo? Tristeza...miséria falta de coragem..

JR Há 2 semanas

Papagaios.

Oh André Há 2 semanas

Incrível é Ainda haver 20% a votar naqueles fdgp

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