Celso  Filipe
Celso Filipe 30 de agosto de 2017 às 23:00

A tentadora Autoeuropa

"Posso resistir a tudo menos à tentação." Esta é uma das muitas frases geniais de Oscar Wilde que ficaram para a posteridade e assenta como uma luva à greve na Autoeuropa. Os trabalhadores foram capazes de resistir a tudo, excepto à tentação de uma greve oportunística.

Todas as greves têm razões, mais ou menos plausíveis, e esta não foge à regra. Mas é oportunística por dois motivos. Um tem que ver com o fim de um ciclo sindicalista na fábrica de Palmela, que se materializou com a reforma do líder histórico dos trabalhadores, António Chora. O outro resulta de ter sido atribuído à Autoeuropa a construção de um novo modelo da Volkswagen, o T-Roc, que dá um enorme fôlego à empresa,  obriga a trabalhar aos sábados e forçara à contratação de mais pessoal para atingir as metas de produção previstas, que passam por fabricar 240 mil carros em 2018.

 

O facto de a Autoeuropa ter paralisado a produção ontem significa uma aparente identificação dos trabalhadores com os motivos invocados para a mesma. A anterior comissão de trabalhadores e a administração tinham chegado a acordo para o pagamento de mais 175 euros por mês pelo trabalho aos sábados, mas esta proposta acabou por ser chumbada em plenário e daí a greve. A primeira (exceptuando as greves gerais) nos 26 anos de existência da Autoeuropa.

Parece claro que esta greve de dois dias é uma forma de a CGTP tomar conta da Autoeuropa, após a saída de António Chora, afecto ao Bloco de Esquerda. Não é por acaso que o Bloco, geralmente apoiante de todas as greves, diz, através da voz de Catarina Martins, olhar com "enorme apreensão" para esta.

 

Mesmo que os trabalhadores consigam uma melhoria dos valores a pagar aos sábados (os lamentos por ter de trabalhar neste dia são estapafúrdios) é evidente que a relação de confiança entre a administração e os trabalhadores se deteriorou inexoravelmente e que este facto irá pesar, lá mais para a frente, quando os alemães tiverem de tomar decisões em situação adversa. E os putativos ganhos que poderão ser obtidos agora irão diluir-se no futuro. A politização da Autoeuropa é uma má notícia para a empresa e, por arrasto, para o país.

 

A tentação de exibir poder agora vai ser prejudicial no futuro. O primeiro passo neste sentido é o facto de a administração da Autoeuropa afirmar que só está disponível para voltar à mesa das negociações em Outubro, quando for eleita a nova comissão de trabalhadores. Abriu-se a caixa de Pandora, soltaram-se as tentações e a esperança ficou agarrada ao fundo.  

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mais votado Anónimo 31.08.2017

Se os automóveis produzidos na unidade industrial podem vir a sofrer uma redução de 33 ou mais por cento no seu preço por via da aplicação de tecnologia da área da automação e robótica industrial, obviamente que eu enquanto consumidor de automóveis quero usufruir o quanto antes dessa redução de preço. Se por acréscimo, enquanto accionista, posso obter sob a forma de dividendos e potenciais mais-valias um excelente retorno sobre o investimento em acções dessas empresas que desenvolvem e fabricam sistemas de automação e robótica industrial, não restam dúvidas de que o sindicalismo defensor do excedentarismo, a par com a corrupção, a escravatura e o genocídio, é um mal que deve ser extirpado das economias e sociedades sem qualquer hesitação.

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Anónimo 01.09.2017

O que os alemães querem é introduzir a ideia de que é norma a semana de seis dias de trabalho!



Anónimo 31.08.2017

Imagine, caro jornalista\leitor, que o seu patrão lhe comunicasse que teria obrigatoriamente de trabalhar ao sábado. Imagine que, ao invés dos 400 euros estabelecidos contratualmente, lhe dissesse que apenas poderia pagar 175, porque sim. Você aceitaria? Ficaria grato? E se fosse com um filho seu?

Anónimo 31.08.2017

APOIADO!!! É PENA QUE DECORRIDOS 44 ANOS SOBRE O 25ABR AINDA HAJA TANTOS TRABALHADORES Q SE DEIXAM MANIPULAR SEM PENSAREM PELA PRÓPRIA CABEÇA. CÓDIGO DE HONRA QUE JAMAIS DEVERIAM ESQUECER: ONDE ENTRA A CGTP É PARA MATAR! O PROPRIO CHORA SOUBE DIZER NÃO AO LOUÇÃ!!! E VEJAM O RESPEITO QUE LHE TÊM.

Olharapo 31.08.2017

Excelente análise , simples e realista , daqui a 5 anos conversamos.

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