Raul Vaz
Raul Vaz 25 de maio de 2017 às 00:01

Adivinhe quem veio à festa

A saída de Portugal do défice excessivo foi justamente festejada pelo Governo, pelas oposições (sim, o Bloco e o Partido Comunista já não são oposição), e pelo Presidente da República, que o fez de forma isenta e justa: parabéns a Passos Coelho e parabéns a António Costa.
Sem continuidade no percurso (por muito que doa à esquerda radical, que se mantém naquele maravilhoso limbo, nem poder, nem oposição), nada disto tinha sido assim.

António Costa é uma das faces da boa moeda, sem dúvida. Pelo pulso firme com que, sem parecer, conseguiu impor moderação à geringonça e garantir que Lisboa continuaria a cumprir Bruxelas. Mas Mário Centeno é cabeça-de-cartaz – foi ele o ministro das Finanças que geriu o bolo, foi ele que discretamente, mas com competência, amparou (por vezes com um sorriso amarelo) os parceiros que ou querem sair do euro ou querem renegociar a dívida. E fica no currículo ter sido ele quem conseguiu dobrar o senhor Schäuble, que terá comparado Centeno a Ronaldo no plantel do Ecofin. Nunca fiando. Mas se está dito, está dito.

Só que esta boa moeda tem uma outra face e nela o rosto obrigatório é o de Pedro Passos Coelho. Se hoje na oposição, o líder do PSD parece perdido no rumo a seguir, à frente do governo que teve de gerir a bancarrota herdada de Sócrates, Passos foi um primeiro-ministro com estratégia, coragem e determinação. E não tivesse sido o seu governo a reduzir o défice de 11 para 3% e hoje não havia Ronaldo que nos valesse.

Em boa verdade, está explicado porque é que António Costa nunca poderia organizar uma festa para comemorar o feito. Além de ser difícil convencer o Bloco e o Partido Comunista a alinharem na dança, não enviar convite a Passos Coelho seria de mau tom, convidá-lo estaria fora de causa, e havia sempre o risco de, a meio da festa, aparecer um "penetra" chamado Vítor Gaspar. Burlesco? É que se Centeno é Ronaldo, Gaspar foi Messi. Costa tem razão, o melhor é fazer a festa em família.

Marcelo Rebelo de Sousa apadrinhou os festejos com superior sabedoria: "Isto corresponde a um sonho meu que é o da continuidade do Estado, há questões de Estado que ultrapassam os governos de cada momento." Continuidade, eis a palavra que comunistas, bloquistas e muitos socialistas nem querem ouvir. Mas a quem Marcelo está a dizer: habituem-se! É que a reposição dos rendimentos aos funcionários públicos e pensionistas são trocos se a conta incluir o aumento dos impostos indirectos e as cativações à bruta que deixaram Saúde e Educação à míngua nesta estreia do governo das esquerdas. Mas essas são contas que o tempo fará. Para já, parabéns aos portugueses! O Ronaldo somos nós. 

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mais votado IS Há 2 semanas

Bom texto de Raul Vaz.

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IS Há 2 semanas

Lamentavelmente continuam a ler-se os comentários de "Luis", "LNG" "Lurdes"[Leitor não registado] em modo repetição da sua própria estupidez.

IS Há 2 semanas

Bom texto de Raul Vaz.

GabrielOrfaoGoncalves Há 2 dias

Não há factos? Não há argumentos? Só areia na cabeça?

Se o PIB crescer 2,8% este ano, a dívida pública, para diminuir em relação ao PIB, tem de registar um crescimento abaixo desses 2,8%. Centeno está em condições de garantir isto?

É já certo que a dívida, em termos absolutos, vai crescer. Não há mal por isso! Há mal é se a dívida, em relação ao PIB, não diminuir.

É que continuaremos então a pagar aos nossos credores 8 mil milhões de euros, mais coisa menos coisa, por ano. O equivalente a 16 submarinos por ano. Ou os tugas são pouco inteligentes ou masoquistas. Qual a Pátria que gosta de ver sair cerca de 4,5% da sua riqueza para pagar juros de uma dívida... que não apresenta sinais de descer, em relação à riqueza produzida?

Por isso preferia que a sobretaxa se tivesse mantido. Que se tivesse mantido até que houvesse um ano orçamental em que a dívida, em relação ao PIB, descesse!

Nota: nunca votei PPC, PP, nem PàF. Os cadernos eleitorais atestam q nas últimas eleições não votei.

GabrielOrfaoGoncalves Há 2 dias

Deve ser uma grande azia ver o "Ronaldo das Finanças" (até prova em contrário nem acredito que Schäuble tenha dito isso) continuar a aplicar a receita do "brutal aumento de impostos" de Vítor Gaspar.

Mas como é socialista já não é nem neo nem ultraliberal. É assim: a questão não é dar palha aos burros; é como se lhes dá a palha.

Aumento brutal de impostos feito pela direita: austeridade que mata.
Continuação, pela esquerda, do brutal aumento de impostos feito pela direita: "há uma alternativa à austeridade".

No meio de tudo isto, os funcionários públicos não reivindicam a diminuição da carga fiscal. Reivindicam o aumento de salários. Por que razão será?

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