Celso  Filipe
Celso Filipe 22 de agosto de 2017 às 23:00

Angola, os juízos e os factos

Angola está exactamente na mesma encruzilhada em que se encontrava há cinco anos: a de manter uma nomenclatura de ricos, com riscos de implosão social, ou apostar definitivamente na criação e distribuição de riqueza, de forma transversal, por toda a sociedade.
As eleições de hoje, 23 de Agosto, em Angola, são o fim de um capítulo na história do país. O adeus de José Eduardo dos Santos à Presidência da República marca o início de um ciclo de viragem, independentemente dos resultados do plebiscito, e traz com ele um conjunto de incertezas sobre o futuro.

Eduardo dos Santos, ao longo de 38 anos, foi uma referência inquestionável do poder e o garante da estabilidade, primeiro no interior do próprio MPLA, e depois de 2002, como promotor da paz, garantindo a inclusão social dos antigos guerrilheiros da UNITA. Pode parecer pouco, mas foi muito num país que viveu em conflito desde 1961. Primeiro a luta armada contra o colonialismo português, e após a independência, em 1975, uma longa guerra civil que terminou apenas há 15 anos.

Contudo, o prazo de validade para usar a guerra como pretexto para justificar um comportamento letárgico do Governo e a forma como certos membros da elite tiram vantagens do poder, em nome do seu passado, está a terminar. Não só por pressão da comunidade internacional, mas sobretudo por uma progressiva consciencialização da sociedade angolana, sendo que há uma geração emergente para a qual a guerra é já uma realidade distante porque não-vivida.

A incerteza primordial desta eleição resulta do processo de sucessão. Caso vença, será João Lourenço capaz de manter o MPLA unido e acelerar o conjunto de reformas de que o país precisa? E será capaz, por exemplo, de promover uma aliança pós-eleitoral com o CASA-CE, o partido de Abel Chivukuvuku, que já se mostrou disponível para testar uma solução deste género?

Angola está exactamente na mesma encruzilhada em que se encontrava há cinco anos: a de manter uma nomenclatura de ricos, com riscos de implosão social, ou apostar definitivamente na criação e distribuição de riqueza, de forma transversal, por toda a sociedade.

Sabendo que o petróleo se vai manter a preços baixos, o futuro Governo de Angola tem de atalhar caminho e passar das palavras aos actos no estafado discurso de diversificação da economia, o que passa também por garantir previsibilidade, segurança e transparência nas relações com os investidores, sejam eles nacionais ou estrangeiros.

Existe, para já, um princípio animador. Tanto o MPLA, partido no poder, como a oposição, confluem na necessidade de mudanças. Angola necessita delas, não para satisfazer os juízos morais de terceiros que avaliam Angola por critérios diferentes dos que usam em relação a outros países, mas para construir um país de futuro. É isso que se exige a todos os líderes angolanos que souberam fazer a paz, que trabalhem agora para fazer de Angola um país bem-sucedido. Para todos.
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