Tiago Freire
Tiago Freire 30 de janeiro de 2017 às 00:01

As "Soft Skills" e a geringonça

Enquanto a página de internet da UGT anunciava uma formação de nome "Soft Skills – A arte de bem comunicar começa agora", Carlos Silva perdeu o controlo e partiu a loiça toda. O destinatário: a CGTP, o PCP em formato sindical.
O motivo da tempestade foi a intenção de a CGTP participar nas conversas, entre parceiros sociais e Governo, sobre a adenda (a redução do PEC) ao acordo de concertação social. Alega a UGT que a CGTP não tem nada que ver com o assunto, depois de se ter recusado – como de costume – a assinar o acordo de concertação. E Carlos Silva deixou um ultimato agressivo: ou a CGTP assina o acordo e discute depois a adenda com os restantes parceiros, ou se quiser discutir só a adenda a UGT fica de fora do acordo. Uma espécie de "ou ele ou eu", que coloca o Governo numa situação delicada.

Arménio Carlos respondeu com argumentos técnicos, lembrando que a questão do PEC terá de ser apresentada na concertação social, e naturalmente não cabe à UGT escolher quem entra ou sai da concertação. Mas a questão não é técnica, é política.

Carlos Silva fartou-se da posição da CGTP, de quem "nunca quer sujar as mãos", nunca assina nada, mas depois quer sempre ir mandar bitaites e influenciar o sentido final das decisões. É compreensível. Mas mais do que um arrufo – surpreendentemente violento – entre UGT e CGTP, há uma leitura mais ampla que importa fazer.

A CGTP, na conjuntura actual, não é só a CGTP. Com o enquadramento governativo vigente, António Costa e Vieira da Silva sabem que destratar Arménio Carlos iria necessariamente ter consequências por parte do PCP.

Mas o ataque de Carlos Silva, um ilustre militante socialista, não é só dirigido à CGTP: é um alerta ao Governo e à forma complacente como este tem lidado com a intersindical, por razões que toda a gente compreende.

Tal como na TSU a questão nunca foi a TSU, também aqui a questão não é a adenda do PEC, a concertação social ou sequer a CGTP. A fricção vem da convivência forçada entre duas correntes, duas visões do mundo muito diferentes. E se, do lado do Governo, tem havido uma paciência de Job, já do lado da CGTP pouco ou nada mudou, muito menos em termos de discurso: Arménio Carlos fez questão de dizer na sexta-feira que "o nosso adversário são as confederações patronais".

Esta é mais uma fissura, ainda que apenas latente, dentro da "geringonça", e do desconforto que existe dentro do próprio PS.

É que há muito socialista que começa a ficar farto de fazer metade do caminho de aproximação, e ver as forças mais à esquerda alegres e orgulhosamente imóveis.

Carlos Silva perdeu a paciência. Depois do episódio da TSU, quanto tempo mais durará a paciência de António Costa? 

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comentários mais recentes
surpreso Há 3 semanas

Carlos Silva meteu o pé na argola.Sindicatos que interessam a Costa são os do Arménio,da rua,que horror...

Francisco António Há 4 semanas

Desta vez, o homem da UGT conseguiu ultrapassar em "casmurrice" o camarada da Inter !

Mr.Tuga Há 4 semanas

CGTP, PCP, BE, PEV, PAN e PS só gostam de se colar as BOAS NOTICIAS....

Quando são más, a culpa é sempre de terceiros!!!!