André  Veríssimo
André Veríssimo 30 de julho de 2017 às 23:00

Balbúrdia no Oeste

É cada vez mais difícil levar a sério esta administração norte-americana. O Presidente é incapaz de levar adiante a sua agenda política. O partido que é suposto apoiá-lo está fracturado. Para compor o ramalhete, vive-se uma guerra aberta e desbragada na Ala Oeste da Casa Branca.

Donald Trump foi buscar Anthony Scaramucci – um italo­-americano formado em Harvard, estrela em ascensão no mundo financeiro, ex-Goldman Sachs e gestor do seu próprio "hedge fund" – para ser o próximo director de comunicação. Na realidade, para ser algo mais do que isso.

Scaramucci é um tipo espalhafatoso e ultraconfiante, ao estilo Trump. A colagem chega a ter contornos algo sinistros, como usar os mesmos gestos de mãos do patrão, o mesmo recurso a superlativos, referir-se a si próprio na terceira pessoa e fazer do Twitter um jogo de setas de tiro ao alvo. O novo director é uma extensão do Presidente e, segundo o próprio, só a ele responde. A estratégia de comunicação, feita de meias e pós-verdades, tudo indica que é para manter.

A primeira missão entregue a Scaramucci foi correr com o seu suposto superior hierárquico, o chefe de gabinete de Trump, Reince Priebus. Em vez de ser o próprio Presidente a dizer que perdera a confiança em Priebus, enviou o novo director para o escorraçar com a acusação pública de era ele o chefe das toupeiras na Casa Branca. No dia seguinte era anunciado que Priebus, escolhido mais para agradar ao Partido Republicano do que por convicção própria de Trump, daria o lugar ao general John Kelly. Steve Bannon, o ideólogo e conselheiro principal de Trump, que já teve melhores dias no número 1600 da Pennsylvania Avenue, também já foi visado por Scaramucci.

Trump tem fama de fomentar relações de conflito no seu séquito. Desde que tomou posse que as quezílias na sua equipa têm feito notícia e provocado baixas. A lista de despedimentos e demissões já vai longa e inclui alguns cargos centrais na Casa Branca. O próximo pode ser o procurador-geral, Jeff Sessions. A estrela de "O Aprendiz" já se arrependeu da nomeação e poderá em breve soltar um "you’re fired" se Sessions não sair pelo seu pé.

A Casa Branca mais parece um faroeste e tem sido um festim para os humoristas. Noutros tempos, Mel Brooks não resistira a fazer desta balbúrdia uma comédia.

Trump não consegue pôr em ordem a sua própria casa – veremos se um general o conseguirá. Seis meses depois, o Obamacare continua por revogar. Assistiu à aprovação de novas sanções à Rússia, às quais se opunha. As reformas fiscais e económicas prometidas continuam sem sair do programa eleitoral. A investigação às relações entre a sua campanha e a Rússia colocam-lhe uma espada sobre a cabeça. É um Presidente a tentar sobreviver e não a governar.

Um Donald Trump sem força e autoridade, consumido em intrigas palacianas, pode até ser um alívio para muitos americanos e para o mundo. Ter um Presidente dos Estados Unidos nessas circunstâncias pode revelar-se um barril de pólvora. 

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comentários mais recentes
Anónimo 31.07.2017

Infelizmente por cá estamos sem oposição ao governo. Uma falha importante na democracia Portuguesa que necessita de contrapoder. Será que uma fusão do CDS com o PSD num partido liberal não seria uma solução? Uma coisa é certa Passos Coelho não é já ouvido, nem dentro nem fora...

Jim Pereira 31.07.2017

Bom mesmo, é a calma e o absoluto domínio reinantes no governo de Portugal, produto e fruto, do maior estadista português, depois de Dom Afonso Henriques.
Ah! E o que dizer da 'calma social'? Jamais visto em Portugal! Produto e fruto do gênio político do maior estadista português, depois de...

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