Celso  Filipe
Celso Filipe 03 de janeiro de 2017 às 00:01

Caixa de egos

Caso a Caixa Geral de Depósitos fosse um banco cotado, há muito que as suas acções estariam nas ruas da amargura, penalizadas por todo este festim mediático que conduz à degradação da imagem da instituição e tem retardado o seu urgente processo de reestruturação.

O folhetim Caixa Geral de Depósitos já ultrapassou há muito os limites da razoabilidade. A rábula em torno da nomeação de António Domingues, o seu posterior afastamento e a escolha de Paulo Macedo para o substituir são os pilares de uma narrativa que começou em Agosto do ano passado e desprestigia todos os envolvidos. Sem excepção e com responsabilidades distribuídas.

Caso a Caixa Geral de Depósitos fosse um banco cotado, há muito que as suas acções estariam nas ruas da amargura, penalizadas por todo este festim mediático que conduz à degradação da imagem da instituição e tem retardado o seu urgente processo de reestruturação. E caso a Caixa não fosse um banco do Estado, o que é sinónimo de segurança, muitos clientes já teriam batido em retirada, à procura de uma instituição que lhes merecesse mais credibilidade.

 

O último episódio em torno de Domingues e da sua recusa em continuar na liderança até à chegada de Macedo é o culminar de todo este desmando. Segundo é público, o banqueiro queria que a tutela encontrasse uma solução legal para a extensão de mandato até à tomada de posse de Paulo Macedo e recusou ficar por falta de condições jurídicas.

 

É claro que o Governo, responsável pelo banco, sai muito mal deste filme, pela aparente ligeireza com que tratou do dossiê e por ter acordado com Domingues condições que afinal não foi capaz de cumprir. Mas também é evidente que Domingues, só por teimosia e porventura despeito, se recusou a ficar mais 10 dias no banco, criando mais um episódio rocambolesco que uma pequena dose de bom senso tornaria evitável.

 

No centro de todo este imbróglio que mete vaidades, farsas políticas, pitonisas despeitadas e até uns quantos interessados, por razões ínvias, no prolongamento de um quadro de incerteza, está um banco que devia ter um papel central no financiamento da economia portuguesa e tem vindo a ser destratado por aqueles que aparentemente têm (ou tiveram) a missão de o relançar.

 

A Caixa não é o banco de Domingues ou de Macedo, não é o banco tutelado por Centeno, ou o banco imaginado por este primeiro-ministro, sonhado pelo anterior, ou desejado pelo que vier a seguir. Nem pode ser o palco para a exibição de egos. A Caixa é o banco do Estado e o que se tem visto, até agora, é o Estado tratar com displicência um activo seu (e nosso, dos portugueses) que é valioso.

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