André  Veríssimo
André Veríssimo 14 de Novembro de 2016 às 00:01

Caixa sem saída limpa

O que nasce torto jamais se endireita. Não tem de ser assim, mas é assim que diz o povo e não é à toa. Temos na Caixa mais um caso que confirma a regra.

A tortura do processo vem ainda do anterior Governo. Bastava fazer algumas contas e mesmo assumindo um cenário conservador daria para perceber, mesmo no início de 2015, que a Caixa ia precisar de capital até ao final de 2016. Passos Coelho, que não queria borrar a pintura da saída limpa, nada fez. Ora, como se sabe, adiar a resolução dos problemas costuma ter o efeito de os tornar maiores e mais graves.

 

António Costa também não foi lesto. A administração da Caixa terminara o mandato em Dezembro de 2015 e só em Abril veio o convite a António Domingues. Foram precisos mais quatro meses para a nova equipa tomar posse, no final de Agosto, depois de um braço de ferro perdido com o BCE por causa do modelo de "governance" e nomes a saírem da lista.

Chegados a Novembro, o que temos? António Costa tem um plano de recapitalização público que Bruxelas aceitou como não sendo ajuda de Estado. O que é muito. Não tem é uma equipa de gestão para o implementar.


Nos últimos meses assistimos a uma campanha sistemática de destruição da primeira administração despolitizada da Caixa. Um corpo estranho que os anticorpos do sistema vigente se encarregaram de atacar. Pegou-se por tudo, desde o número de administradores, ao acesso a informação sigilosa, aos salários e às declarações de rendimentos. Não é que não haja questões a levantar, mas foi tão grande o cavalo de batalha que se fez... E que contraste com as auditorias e comissões de inquérito, sobre as quais anda quase tudo calado.

A imensa, difícil e delicada tarefa de reestruturar a Caixa exige uma administração na plenitude da sua força, legitimada, com apoio político e público. O que Domingues já não tem e dificilmente recuperará. Depois de dizer a António Domingues que concordava com as suas condições, entre elas a dispensa da entrega das declarações, António Costa abandonou-o à sua sorte. Como o primeiro-ministro gosta de salientar, o mais importante já tem: a recapitalização. Ainda que, no meio deste caos, a parte privada da operação vá por certo ser adiada.

Isto já está tão enlameado que não há saída airosa. Mesmo que o Tribunal Constitucional viesse a aceitar os argumentos da administração da Caixa, o que é improvável, António Domingues está demasiado fragilizado. António Costa e as Finanças não foram sérios, prometeram o que afinal não podiam cumprir. Se a administração cair, há responsabilidades políticas do Governo, além de que será mais um episódio a manchar a imagem de Portugal lá fora. O novo presidente da Caixa também não sai bem. Achou, mal, que podia ter uma lei à sua medida. Que podia estar na Caixa como num qualquer banco privado. Fica mal o país, há um ano com o seu maior banco em apoplexia.

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comentários mais recentes
Pedro Há 3 semanas

E quem vai pagar à McKinsey o estudo para a nova administraçao que custou 3 milhoes e, afinal, nao vai servir para nada? Vai ser o Antonio Domingues do seu bolso? O Centeno? Ou como acontece sempre que os socialistas governam, vamos pagar nós?