Tiago Freire
Tiago Freire 10 de julho de 2017 às 00:01

Cative-se a demagogia

Na política, como na vida, (quase) nada é de graça. E com os números, esses cruéis seres matemáticos, para irem para algum lado têm de sair de outro. Toda esta conversa das cativações, que sempre existiram e existirão, resume-se, em última análise, a uma questão de escolhas.

Recuperemos os princípios básicos que, creio, ninguém conseguirá disputar: a) o dinheiro é escasso, não dá para tudo, e mesmo o que há é esmifrado das mãos dos portugueses que pagam impostos, a taxas obscenas; b) para resolver o primeiro problema, ou se gasta menos ou se cobra mais receita, com o perigo de emperrar a actividade económica e penalizar os que já são penalizados; c) neste dilema, a escolha é eminentemente política, de onde se tiram fatias para dar mais bolo a outros.

 

Ainda assim, está por demonstrar que os efeitos do incêndio de Pedrógão Grande e que o roubo de Tancos se tenham devido a falta de meios, isto é, de dinheiro. O que houve é falta de organização, falta de gestão, falta de preparação. Ligar as cativações aos dois tristes acontecimentos é demagogia, à qual a direita não está a conseguir resistir.


Quer isto dizer que não se devem discutir as cativações, neste momento? Não. Como percebemos pelo último ano, em que o PSD e o CDS andaram a pregar no deserto sobre o tema, o país só acordou para o mesmo em cima de dois factos lamentáveis para Portugal. Ou seja, se não se discute esta fundamental questão agora, provavelmente será esquecida, diluída pelo sorriso de António Costa e pelas explicações parcelares de Mário Centeno.

Dito isto, é enternecedor ver o Bloco e o PCP acordarem agora para as cativações. Porque passaram mais de um ano a fingir que não percebiam. Mais, passaram mais de um ano (e continuam agora) a não assumir uma evidência: as cativações existem e continuarão a existir pelas opções políticas de despesa influenciadas em grande medida pelo Bloco e pelo PCP. Eu sei que como slogan é interessante gritar contra "os ditames de Bruxelas". Mas estes são, felizmente, levados a sério por Centeno & Cia. Neste cenário, como se atinge "o défice mais baixo da democracia", se acelera a devolução de rendimentos a pensionistas e funcionários públicos, se descongela carreiras e se desce horário de trabalho, se distribui dinheiro a este eleitorado, como se faz tudo isto se não se cortar noutro lado? Ninguém explica, porque não é possível.

Na verdade, o português cidadão recebeu em 2016 serviços públicos piores, para que o português pensionista e o português funcionário público pudessem receber mais depressa aquilo que lhes foi cortado durante o ajustamento. Podemos concordar ou discordar, mas houve essa escolha política. É este modelo que urge discutir, desassombradamente.   

O resto é conversa. Ou demagogia.
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Manuel 10.07.2017

Qual modelo? Nós, tugas, já somos, regra geral, preguiçosos e quando se trabalha e não se tem dinheiro para o básico (porque não se tem com 500 ou 600 euros) a malta deprime e se a depressão leva ao suicídio, imagine-se o que faz ao trabalho.Quem se rala em fazer pouco e mal? É como uma paga, não é?

Anónimo 10.07.2017

Um Atrasado Mental e puro demagogo que tem opinião ..... o melhor era ir - se catar!

ricardo 10.07.2017

o IVA da restauração sim foi um erro. As 35 horas creio ser uma medida acertada. As pessoas vão ter que começar a ter horários mais reduzidos as novas tecnologias a isso vão obrigar e por algum lado tem que começar. Além disso foi uma reposição. O tempo da escravatura já lá vai.

Ortigao.Sao.Payo 10.07.2017

Só q traidores encartados e de belives não conhecem esta palavras têm sempre razão ate com 64 mortos e 200 feridos pois assim provam q sistema está ao seu nível

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