André  Veríssimo
André Veríssimo 13 de abril de 2017 às 00:01

Centeno, o anti-Costa

Centeno o académico, Centeno o tímido, Centeno o dos e-mails da Caixa, Centeno o político inábil, Centeno o que se devia demitir, Centeno o do défice além de Bruxelas. E, no entanto, Centeno o ministro mais popular do Governo.

A longevidade no cargo dos independentes que ocupam a pasta das Finanças tem sido curta. Luís Campos e Cunha esteve quatro meses. Vítor Gaspar aguentou-se dois anos. Centeno ainda só leva 17 meses, mas tal como a mal-amanhada "geringonça" também o ministro parece lançado para desafiar a baixa probabilidade de sobrevivência que lhe era atribuída.


Ser titular das Finanças rivaliza com a Educação na apreciação pública negativa a que o cargo está, em regra, associado. E Centeno tem tido os seus maus momentos, sendo o dossiê Caixa o mais grave. A acusação de que mentiu no Parlamento deixou-o muito perto da demissão – "O meu lugar está naturalmente à disposição do primeiro-ministro", chegou a dizer há dois meses. Nada que o impeça de ser o ministro mais popular do Governo.


A última sondagem da Aximage, publicada no dia 8 no site do Negócios, mostra que Mário Centeno é, de longe, o ministro com mais notoriedade. É o nome que primeiro vem à boca de 51,9% dos inquiridos, a grande distância do segundo: Vieira da Silva, com 3,7%. É também, mais uma vez com grande margem de diferença, o nomeado como melhor ministro (39,4%). Também está entre os piores (8,2%), mas só depois do da Educação (14,4%) e do da Saúde (8,5%).

Não é propriamente uma proeza. Basta ser o ministro das Finanças que baixa impostos e repõe salários. Talvez fosse ainda mais popular não tivessem existido os casos já mencionados. Mas fica­-se com a ideia de que, na verdade, eles nem chegaram a ferir a imagem do ministro. Forçado ou espontâneo, o ar inibido e de alguma vulnerabilidade ajuda a compor a imagem de um homem sério e confiável. Centeno é o anti-Costa, no sentido em que é a antítese do animal político. E isso é um trunfo, tanto para o ministro das Finanças, como para o primeiro-ministro.

Centeno empresta uma imagem de rigor e fiabilidade ao Executivo. Melhor ou pior, vai resolvendo os problemas na banca e foi capaz de baixar o défice, mesmo tendo de cumprir os mínimos olímpicos do acordo com Bloco e PCP. Além de anti-Costa, Centeno é um antídoto da própria "geringonça". É o único activo de Costa na credibilidade internacional do Governo. O primeiro-ministro sabe-o, tal como o Presidente da República, que entendeu segurá-lo "atendendo ao estrito interesse nacional, em termos de estabilidade financeira".

Por isto tudo, e também porque Centeno se tem tornado politicamente mais hábil, não se compreende como se deixou envolver na história do "sondado" ou na vergonhosa encenação de Mourinho Félix no Eurogrupo. Isso só o faz parecer mais com Costa e não é esse o seu papel.

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comentários mais recentes
nin 13.04.2017

Onde será que vive André Veríssimo? Baixaram os impostos? Subiram os salários? Onde? Subimos ao pódio do país com a maior carga fiscal do planeta, e quanto a salários Centeno subiu os da função pública. Dá votos.
Quantas mentiras cabem num editorial?

pertinaz 13.04.2017

BASTA LEMBRAR SÓCRATES PARA PERCEBER QUE O POVÃO É MASOQUISTA...

Anónimo 13.04.2017

Quer-me parecer que ele até é bastante político.

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