André  Veríssimo
André Veríssimo 01 de agosto de 2017 às 23:00

Cinismo político e comissões

As agendas políticas andam amiúde ao sabor dos incêndios mediáticos. Fazem-se declarações inflamadas, prometem-se respostas legislativas, mas entretanto o lume baixa ou aparece outro fogo e nada acontece.

Tem sido assim com o tema das comissões bancárias. Foi criado em Janeiro do ano passado um grupo de trabalho no Parlamento para legislar sobre o tema, mas há mais de um ano que nada acontece. O dito grupo está até sem representantes do PS, depois de Ana Passos e Eurico Brilhante Dias terem ido para o Governo. Uma prioridade, portanto.

Nos últimos anos, um grande número de portugueses viu juntar-se às facturas da luz, da água ou das telecomunicações a mensalidade do banco. Ter conta numa instituição financeira já foi grátis – agora paga-se e até já há pacotes com vários serviços ao estilo "triple play". Quem tem crédito viu o custo com juros encolher, e muito, e o das comissões subir bastante.


Aumentos que serviram para minorar o efeito devastador dos juros negativos nos resultados, em parte culpa (própria) dos "spreads" ultrabaixos. Um caminho endossado, de resto, pelos reguladores na Europa e em Portugal.


Seguindo o ardor mediático, os partidos voltaram a pegar recentemente no tema a propósito do aumento das comissões na Caixa e do facto de muitos pensionistas perderem a isenção. É cinismo político. Todos sabem que a Caixa está a aumentar comissões e vai continuar a aumentá-las porque a isso está forçada pelo acordo de recapitalização assinado com Bruxelas e Frankfurt. Está no plano estratégico: o peso desta receita no volume de negócios tem de passar de 0,35% para 0,45% até 2020.


O problema da Caixa é que chega tarde à onda. Enquanto os restantes bancos iam surfando a vaga – Nuno Amado afirmou na semana passada que no caso do BCP ela chegou ao fim –, o banco público esteve encalhado na indefinição da liderança e do plano de recapitalização. O tema é politicamente sensível e Paulo Macedo usou a apresentação de resultados para preparar terreno quando afirmou que "a Caixa tem as comissões mais baixas do mercado". Podem não o ser em termos absolutos, mas são-no em termos do peso no negócio. E, Frankfurt "oblige",  isso terá mudar. Ser o banco do Estado é irrelevante.

Os partidos hão-de inflamar-se de novo. Mas até o Bloco e o PCP sabem que o regresso à rentabilidade é essencial para a recuperação da banca portuguesa, o que por sua vez é chave para o crescimento da economia e diminuição da percepção de risco nos mercados, sem os quais o financiamento da sua dispendiosa agenda política é inviável. O presidente da Associação Portuguesa de Bancos diz que tem existido um "diálogo frutuoso" com os dois partidos que suportam o Governo em matéria de comissões. E assim continuará a ser. Pelo menos em privado.

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mais votado Ouriço Caixeiro Há 3 semanas

Haverá consenso para que a Caixa (o Banco de que nós todos Cidadãos Contribuintes Portugueses somos de jure Acionistas) tem de aumentar o peso das comissões no seu resultado Liquido, elevando-o para valores similares aos dos seus pares em Portugal e na Europa. Mas tal pode ser feito, mais do que pela via dolorosa de aumentar comissões a clientes humildes, pela via de criar novos produtos, de melhorar a qualidade dos existentes, de ser criativo e pró-ativo ao nível da gama de oferta.Veja-se o caso dos fundos de investimento que davam à CGD cerca de 5 dezenas de M. de € por ano.Bastava um reforço na atividade levando a CGD a uma taxa de venda dos seus fundos no seu universo de clientes semelhante ao que se verifica em Espanha (cerca de 10% contra os menos de 4% que se verificam na CGD), para que os objetivos de aumento de comissões na CGD fossem atingidos.Isto sem dor para os clientes embora com mais exigências para administradores menos preocupados com mediatismos e mais com resultados.

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Anónimo Há 2 semanas

COMISSÕES BANCÁRIAS?
POR ACASO O SR ANDRÉ IGNORA QUE OS BANCOS CONTINUAM A SER OS DONOS DISTO TUDO?
NÃO SERÁ IGNORÂNCIA A MAIS?

Anónimo Há 2 semanas

Cinismo político e comissões

os culpados são vocês que lhe dão tanto "tempo de antena"!

Mr.Tuga Há 2 semanas

É a vida!

Até o MAIOR CHUL*O dos tugas "estado?!" cobra taxas e taxinhas e comissões e impostos até a exaustão....
Por outro lado, o estado factura a grande com o imposto selo sobre as comissoes bancarias?!?
A banca é o maior COBRADOR de impostos do chul*a estado!

Ouriço Caixeiro Há 3 semanas

Haverá consenso para que a Caixa (o Banco de que nós todos Cidadãos Contribuintes Portugueses somos de jure Acionistas) tem de aumentar o peso das comissões no seu resultado Liquido, elevando-o para valores similares aos dos seus pares em Portugal e na Europa. Mas tal pode ser feito, mais do que pela via dolorosa de aumentar comissões a clientes humildes, pela via de criar novos produtos, de melhorar a qualidade dos existentes, de ser criativo e pró-ativo ao nível da gama de oferta.Veja-se o caso dos fundos de investimento que davam à CGD cerca de 5 dezenas de M. de € por ano.Bastava um reforço na atividade levando a CGD a uma taxa de venda dos seus fundos no seu universo de clientes semelhante ao que se verifica em Espanha (cerca de 10% contra os menos de 4% que se verificam na CGD), para que os objetivos de aumento de comissões na CGD fossem atingidos.Isto sem dor para os clientes embora com mais exigências para administradores menos preocupados com mediatismos e mais com resultados.

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