André  Veríssimo
André Veríssimo 14 de dezembro de 2017 às 23:00

Com a Fitch no sapatinho

Se a Standard & Poor’s foi uma afirmação, a Fitch será mais do que uma confirmação. Ter duas das três "majors" (falta a Moody’s) com uma classificação de investimento permitirá que a dívida portuguesa receba o passe de entrada nos índices de obrigações em que estão os países recomendáveis da Zona Euro, o clube onde jogam a Alemanha, Espanha, Itália ou a Estónia.

António Costa dizia na quarta-feira em Bruxelas que "foi um ano particularmente saboroso para Portugal". Hoje, esse gostinho deverá ficar ainda melhor. Nos mercados, ninguém tem dúvidas de que a Fitch vai tirar Portugal do "rating" lixo, juntando-se à Standard & Poor’s. Não é a primeira, mas é igualmente relevante.

Se a Standard & Poor’s foi uma afirmação, a Fitch é mais do que uma confirmação. Ter duas das três "majors" (falta a Moody’s) com uma classificação de investimento permitirá que a dívida portuguesa receba o passe de entrada nos índices de obrigações em que estão os países recomendáveis da Zona Euro, o clube onde jogam a Alemanha, Espanha, Itália ou a Estónia.

Isso significa também que o leque de investidores e o peso indicativo que a dívida portuguesa pode ter nas carteiras aumenta quatro vezes, de 0,5% para 2%.


Uma base mais alargada de compradores criará margem para que a taxa de juro da dívida pública portuguesa continue a baixar, mesmo que a confirmação da melhoria do "rating" possa provocar uma correcção inicial. O que trará custos de financiamento mais baixos para o Estado, também porque a necessidade de termos "cofres cheios de dinheiro" – a almofada de tesouraria que Maria Luís Albuquerque criou para proteger o país na saída da troika – será ainda menor. O Governo já contava, de resto, com este rei na barriga no Orçamento que negociou para 2018.


Não são apenas os juros cobrados ao Estado que se reduzem. São os de toda a economia. A reabilitação do país ajudará a fazer o mesmo pelos bancos. O menor risco de Portugal facilitará, por exemplo, a atracção de investimento.


A prenda de Natal chega em boa hora. Segundo os analistas ouvidos pela Bloomberg, o próximo ano trará uma viragem muito significativa na política monetária. A taxa de juro média nas economias desenvolvidas registará o maior aumento em 12 anos. Claro que continuará a ser historicamente baixa, mas a maré vai começar a encher. Mais devagar na Zona Euro, mas cá chegará.


O risco é cair-se na complacência e achar que Portugal está safo. A montanha de dívida pública, mesmo que um pouco mais aplanada, continuará a ser uma enorme fragilidade. É por isso conveniente ir juntando argumentos a esta narrativa positiva que se tem construído sobre o país. Estando fora de "lixo", estamos ainda longe do "rating" que chegámos a ter. Os "BBB-" têm de voltar a ser os "AA" que tínhamos no início do século. Há que subir esses degraus. 
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