Manuel Esteves
Manuel Esteves 21 de dezembro de 2017 às 23:00

Com a saúde não se brinca

Já todos o ouvimos e já quase todos o dissemos: o mais importante é a saúde. E é mesmo. Se não for a nossa que nos preocupa, é a daqueles que nos rodeiam, sejam filhos, pais, irmãos ou amigos. Há sempre uma preocupação de saúde à nossa volta e, por isso, é tão importante garantir que há cuidados médicos para todos nós.
Assim sendo, é natural – e desejável – que este seja um tema de primeira linha no debate político em Portugal. Mas não a qualquer preço. É que se a saúde não o tem, o debate sim, precisa de um preço, isto é, precisa de números, indicadores e parâmetro e só depois sim desejos, convicções e ideologias.

Em Portugal, a discussão tem estado dividida essencialmente em duas trincheiras: de um lado, ouve-se um discurso catastrofista e, do outro, um discurso redentor. Os primeiros dizem que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está a degradar-se cada vez mais e que coloca em perigo a saúde dos portugueses; os segundos pintam de negro o passado recente e anunciam o fim da austeridade e uma aposta firme na saúde.

E os números, o que nos dizem? Dizem-nos que a hemorragia orçamental dos anos da troika foi estancada, mas mostram-nos também que o SNS continua com menos dinheiro do que precisa e que, com a geringonça, a sua despesa nem sequer cresceu em percentagem do PIB. Os indicadores mostram ainda que o SNS tem agora mais médicos e enfermeiros e que produz mais do que antes, ou seja, assegura mais consultas, faz mais cirurgias, atende mais doentes. Mas, e há muitos mas nesta história, os especialistas são peremptórios ao afirmar que este aumento da produção é insuficiente para responder ao crescimento da procura que, por sua vez, será motivado por uma população mais envelhecida mas também mais exigente. E isso vê-se no aumento das filas de espera.

Entre os redentores e os catastrofistas, venha o diabo e escolha. E se o diabo tiver de escolher, estou convencido que prefere estes últimos. É porque se ambos os lados caem na desonestidade quando repetem à exaustão a sua mensagem simplista, quem antecipa a tragédia ao virar da esquina faz muito mais do que assustar velhinhos e ganhar votos. Descredibiliza o Serviço Nacional de Saúde e descredibiliza as centenas de milhares de pessoas cujo trabalho é dar mais saúde aos outros. É exactamente o que acontece com o sistema público de pensões: quem vai querer descontar para a Segurança Social e financiar as pensões dos actuais reformados se estiver convencido que não terá direito a uma pensão decente quando precisar dela? Na saúde, passa-se o mesmo: quem quer pagar impostos para financiar um SNS degradado que não tenciona usar? Quem quer trabalhar num SNS incompetente?

Haja saúde mas também juízo na discussão daquela que foi a mais notável e colectiva construção da democracia portuguesa: o Serviço Nacional de Saúde. Este, juntamente com o sistema público de educação, são instrumentos fundamentais para o Estado assegurar a igualdade de oportunidades a todos os portugueses. 

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mais votado Anónimo Há 3 semanas

No Reino Unido, após o início das necessárias e muito acertadas reestruturações, existiam em 2016 menos 6100 administrativos e mais 30000 colaboradores clínicos do que em 2010. E asseguro que o número de 6100 já cresceu entretanto... "A Department of Health spokesman said: “We expect all parts of the NHS to have safe staffing levels – making sure they have the right staff, in the right place, at the right time.” He said the NHS now employed 6,100 fewer managers and almost 30,000 more clinical staff than in 2010." https://www.theguardian.com/society/2016/jan/29/hospitals-told-cut-staff-nhs-cash-crisis

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Ciifrão Há 3 semanas

Não aumentou o dinheiro dos gerigonços para a saúde como não aumentou para muitas outras despesas essenciais, a somar às contas por pagar. O dinheiro que dizem saber multiplicar ainda vai dar sumiço.

Anónimo Há 3 semanas

"Na saúde, passa-se o mesmo: quem quer pagar impostos para financiar um SNS degradado que não tenciona usar" Não tenciona, mas se entrar numa ambulância, lá vai parar!!!

Ze Há 3 semanas

Acho um insulto a forma como tratam as pessoas nas urgências. Afnal, são os nossos impostos. Macas umas ao lado das outras como se num cenário de guerra. E os anos passam e o cenário continua igual. Eu não quero que os meus ultimos dias sejam assim!!! Exijo digidade!!

Anónimo Há 3 semanas

O despedimento de excedentários é normal em qualquer economia desenvolvida do mundo livre. Acontece quase todos os dias em alguma organização do sector público ou privado. A boa gestão de recursos humanos é o maior antídoto para a extracção de valor que luta pelo seu espaço fazendo frente à criação de valor, e que, invariavelmente, leva ao empobrecimento e à mendicante dependência externa.

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