Tiago Freire
Tiago Freire 15 de outubro de 2017 às 23:00

Como se não houvesse amanhã

O Orçamento do Estado para 2018 é um bom Orçamento do Estado para 2018. O único problema é que depois de 2018 vem 2019, 2020 e por aí fora. O futuro, às vezes, é uma chatice.
Um documento deste tipo, como tantas coisas na vida, é feito de escolhas, dentro de um leque finito de recursos. Este Orçamento conta com várias folgas, a boleia do crescimento económico, a envolvente internacional ainda assim benigna, a descida do garrote dos juros da dívida. A questão era de opções: o que fazer com esta folga, com esta margem, com estes recursos?

A escolha foi politicamente clara. Corte no IRS, descongelamento de carreiras na Função Pública, subida relevante nas pensões. Pondo o cinismo analítico no mínimo, é difícil discordar de qualquer uma destas medidas. Podemos discutir o ritmo, a amplitude e, sobretudo, se colectivamente o país não teria mais a ganhar, se não ficaria mais preparado para o futuro, com opções mais mitigadas, mais mistas, com mais acutilância na frente do défice e da dívida pública.

Seria difícil que tal fosse feito. Todos nos lembramos do desconforto palpável da esquerda da geringonça quando Centeno começou a apresentar uma consolidação acima do previsto. Também por isto, a opção foi colocar as fichas todas na cura dos sacrifícios passados. Agora há margem, para o ano não se sabe. PCP e Bloco de Esquerda sabem-no também e para 2018 não querem passar por anjinhos, depois de Centeno ter levado - felizmente - a água ao seu moinho nos últimos anos, sem prejudicar os compromissos assumidos no Parlamento.

Como o próprio Centeno já demonstrou, não há apenas dois caminhos: o da austeridade cega no altar da Mãe Consolidação ou a festa socialista que acaba numa ressaca de vários anos. Não questionando a justiça das opções tomadas, tínhamos aqui uma oportunidade histórica para consolidar além do mínimo já previsto, na prática almofadando o futuro que não será tão favorável para sempre.

Ainda assim, há um ano, discutíamos se Bruxelas aprovaria o Orçamento e como o Governo conseguiria atingir os objectivos com as muitas indicações vagas constantes nesse documento. Agora, há novamente muita coisa vaga, mas já ninguém duvida de que as Finanças vão fechar 2018 com o défice prometido (e eventualmente até melhor). As cativações e o maior valor do investimento previsto (será como em anos anteriores ou será efectivamente investido?) aí estão para dar a margem de segurança. Não é a forma mais transparente de lá chegar, mas tem sido eficaz.

Por último, com este Orçamento, António Costa joga em dois tabuleiros: segura a geringonça para impedir que ela se quebre; e ganha um "doping" eleitoral, para o caso de não se importar muito que ela se quebre, por sua própria iniciativa.
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