Raul Vaz
Raul Vaz 12 de outubro de 2017 às 23:05

Conversas em família

Sabem o que pode vir se Rui Rio ganhar o PSD? Uma espécie (em modo de inteligência artificial) das "Conversas em Família" de Marcello Caetano, que tanto sossegaram o país.

Deu no que deu, num tempo em que ainda era possível acreditar que uma mensagem séria poderia construir uma sociedade diferente. A tropa percebeu o engodo e acabou com a conversa. Fez bem.

 

Acontece que continuamos um país fechado e corporativo. Agora é o Sindicato dos Jornalistas que acorda de uma longa letargia e defende o boicote a declarações várias sem direito a meia dúzia de perguntas - que normalmente não se ouvem no atropelo de quem quer ouvir-se para conseguir cumprir o seu trabalho.

 

Esta bizarria vem a propósito da declaração de candidatura de Rui Rio sem direito a perguntas. O homem que vem do além, e depois de ter falado com a família (fez bem), primos e seguidores da sua sóbria relação com a vida dos costumes, prazeres e afins, sentiu força para avançar. Agora sim, o país muda, mas sem direito a contraditório. Eis-nos, sem ofensa gratuita, na Primavera marcelista.

 

Claro que Rui Rio não é Marcello Caetano e nunca correrá o risco de semanalmente (num esforço hercúleo) se declarar ao país, mesmo que num ambiente controlado e fabricado. Se ganhar o partido e um dia se entender com a moleza que saliva a construção de um mochilão de interesses, Rio encontrará o conforto e a legitimidade interior para não prestar contas a quem se atropela para chegar primeiro e fazer perguntas. Quer isto dizer: Rui Rio é um homem tão sério quanto Marcello Caetano, mas que vive numa época diferente. Uma época melhor, por mais despenteada e livre, com todos os excessos e (in)competências que a liberdade, e bem, permite.

 

Se Rio ganhar, vai ser assim? Ele fala, nós escrevemos, gravamos, transmitimos e o país entra nos eixos. Não pode ser. A não ser que não haja memória, cuidado e gosto pelo tempo (admitimos que desalinhado) em que estamos. Ao lado de Rio está um país que não valoriza o confronto (para quê, se está tudo bem?) e personagens determinantes na ascensão do seu perfil ao poder.

 

Quer isto dizer que Rio vai ser um boneco nas mãos dos barões que agora o promovem? Pelo contrário. O erro é recorrente - desta vez com o agravante de o homem providencial estar a ser, interior e exteriormente, preparado há décadas. Se lá chegar, o que é provável pelo faro de António Costa, Rio rapidamente tirará o sossego a quem, dentro do PSD, agora acha que o irá controlar. O que, parecendo irrelevante, poderá não mexer com um país que precisa de ser despenteado.

 

Rui Rio é então o diabo que vem e Pedro Santana Lopes, o anjo que tem mel (numa histórica apreciação de João Soares)? Não forçosamente. Para que Rio não seja e não acabe como Marcello Caetano terá de ter a coragem de assumir rupturas. Com poderes corporativos, jornalistas, políticos, juízes. E até com vacas sagradas dentro do seu partido. Mas nunca deixando de responder ao microfone. Se não o fizer, Pedro Santana Lopes tem o jogo na mão.

pub