Raul Vaz
Raul Vaz 17 de Outubro de 2016 às 00:01

Costa e a Europa, agora nós

Um ano no poder chegou para António Costa se render às evidências: não é pelo consumo interno que isto vai lá. Ou as exportações e o investimento reanimam ou o futuro pode mesmo ser o diabo.

O quadro macroeconómico que o ministro das Finanças redigiu para o próximo ano é o reconhecimento de que a receita falhou e o Governo vira-se, finalmente, para onde lhe resta olhar: as preocupações sociais são louváveis, mas nada durará se o país não crescer. E para crescer, precisa do exterior.


Na entrevista ao Negócios (uma segunda parte será publicada na edição de amanhã), Mário Centeno começa a falar para fora. Para sinalizar que, uma vez livres dos défices excessivos (uma espécie de saída limpa na lapela da geringonça), Lisboa vai exigir mais da Europa. "Eu não discuto com Bruxelas pensões, impostos, subsídios" (…), "Bruxelas não vota no Parlamento português", diz o ministro. Frases que compensam os parceiros à esquerda (então a sobretaxa não era para acabar em Janeiro!?), mas também são recados para Bruxelas e Berlim. Porque o salto do crescimento fia fino e não se resolve só cá dentro. 


António Costa conseguiu entrincheirar Bloco e PCP - o Orçamento garante, com tranquilidade, um ano de vida. Com sondagens simpáticas, devagarinho mas sempre, porque repor salários, aumentar pensões, aliviar sobretaxas e garantir manuais escolares grátis dá votos. E as estatísticas do INE falam para nichos.


Mas a guerra do instável equilíbrio deste Governo joga-se, a partir de agora, noutros tabuleiros. O primeiro-ministro sabe e procura que aliados do Sul forcem o pedregulho europeu a mover-se. A seu favor, Costa tem o cumprimento do défice, sustentadamente abaixo dos 3%, tem a estabilização em marcha do sistema financeiro português. E tem uma quebra no desemprego e uma impressionante acalmia social - com ou sem pacto na concertação, a rua fala por si. Arménio Carlos está domado, não há greves nem manifes. Bruxelas gosta disto. E Costa, reconheça-se, dispõe bem os eurocratas.


Se o PIB continuar miserável, a diplomacia de esquerda não vai chegar. Mas quando um primeiro-ministro está ausente, na China, no dia em que o seu Governo fecha contas do Orçamento do Estado, em Lisboa, está tudo dito: a caça ao investidor é a vida que resta para além do défice.

Costa tem duas hipóteses: ou ganha a batalha do investimento, mesmo com a geringonça às costas, e tenta cumprir a legislatura, chamando ao PS os ganhos de causa (ouvimo-lo dizer que "este não é o Orçamento do PCP nem do Bloco"); ou não consegue que a economia descole e pode forçar uma ida a votos, no papel de chefe de um Governo que fez um Orçamento de esquerda, com preocupações sociais e reposição de rendimentos.


A primeira era melhor, por muito que custe à direita. Mas é preciso que a Europa ajude. E só por milagre é que uma união europeia em crise existencial profunda se reanima a tempo. O combate passa por aí. Segurar os parceiros e segurar o país é, para António Costa, uma cartada que se joga mais lá fora do que cá dentro.
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mais votado Mr.Tuga Há 2 semanas

Ou seja, correu tudo ao contrario e MAL! Mesmo com a enormíssima ajuda das taxas/petróleo historicamente baixos, mas os hipócritas e mentirosos cantem "vitória"?!?!?!!?

E continuam a distribuir guita que não existe como se não existisse uma colossal divida para pagar...

Este sitio miserável e atrasado não tem futuro! Este sitio MERECE-SE!

comentários mais recentes
hmatos.mail Há 2 semanas

Então vamos ter que pedir uns políticos emprestados à CHINA. Tivemos 4 anos com uma troika um governo de maioria, composto, é verdade, por dois aldrabões e acabados os 4 anos de governo e sem nenhuma reforma digna desse nome a unica coisa que nos ficou foi uma dívida muito maior da que tínhamos antes da vinda da troika. Os DIREITOLAS não prestam a GERINGONÇA não presta, o que nos resta? Diga depressa que estou prestes a matar-me! Sou velho para emigrar, se não fosse isso já aqui não estava, a aturar gentalha CORRUPTA, NUM PAÍS de CUNHAS e AMIGUISMOS.

Francisco Carvalho Há 2 semanas

SEMPRE A TEMPO ! FOMOS LESADOS PELA BANCARROTA E NÃO PELA " PAF " NUNCA VOTEI PS ! TINHA DIREITO A UM DESCONTOZINHO ???

Miguel Santos Há 2 semanas

Mais uma derrota para os direitalhos siga para mais derrotas até o PSD ir ao fundo com PAssos Coelho ao leme e os seus vassalos a destilarem a azia no Facebook !!! Ah!Ah!Ah! Renniiiieeeeeeee!!!!

Fernando Manuel Há 2 semanas

Azia existe supositórios há que os comprimidos não fazem efeito.

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