André  Veríssimo
André Veríssimo 19 de dezembro de 2017 às 23:00

CTT, antes selo

Os CTT foram para a bolsa há quatro anos com a áurea de quem vende uma das últimas jóias do Estado. E o Governo de Passos Coelho conseguiu fechar dois bons negócios. Já quem comprou acções a pensar no longo prazo sente-se ludibriado.
A geração de "cash flows" estável e a promessa de dividendos crescentes foi a música que seduziu os investidores, primeiro na OPV em 2014, depois na venda dos 31,5% que ainda estavam na mão do Estado a investidores institucionais. As primeiras foram vendidas a 5,52 euros, as segundas a 7,25. Os títulos valiam ontem 3,49 euros. O Estado encaixou 909 milhões. A empresa vale agora 524 milhões. A remuneração entretanto recebida pelos accionistas contém os danos, mas não os anula.

Foi por aí, pelos dividendos, que as dúvidas sobre o futuro dos CTT chegaram à bolsa. A narrativa que sustentava as acções ruiu quando se começou a perceber que os resultados gerados pela empresa não eram suficientes para acomodar a remuneração dos accionistas. Em 2017 a empresa pagou mais do que os lucros (o que obriga a usar reservas ou dívida). Este ano reduziu o dividendo que já tinha prometido pagar em 2018.

Os resultados. É sempre esse o cerne da questão. As contas mostram uma erosão acelerada do negócio do correio tradicional, o que não espanta mas preocupa porque 70% das receitas ainda vêm daí. Pior vão também os serviços financeiros, com a quebra na venda de certificados de aforro e do Tesouro. Já a aposta na entrega de encomendas, em crescimento com o comércio electrónico, foi tardia e a empresa paga o preço: não é ainda rentável. A isto acrescem os custos do investimento no Banco CTT, que também ainda não gera lucros. A responsabilidade é da gestão liderada por Francisco Lacerda, que tem sido incapaz de entregar o valor prometido.

A reestruturação anunciada esta terça-feira actua de um dos lados da equação – a dos custos. Como sempre, há um plano de despedimentos, a que se junta um redesenho da rede de agências que promete gerar polémica. A administração junta-se ao movimento baixando a remuneração e eliminando os prémios.

A nacionalização que o Bloco defendeu nunca seria solução: ganhar eficiência era uma inevitabilidade. E a menos que o Estado comprasse pelo preço que vendeu, seria uma fraude para quem investiu.

A gestão dos CTT quis que o negócio parecesse o que já não era. Mais vale sê-lo. A nova política de dividendos, ajustada aos resultados, é um realismo saudável. Como tantos outros sectores, os correios enfrentam o difícil desafio da transformação digital. O tempo dirá se a gestão será capaz de, a tempo, criar valor nas novas apostas. 

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mais votado Anónimo 20.12.2017

Foi fraquinha a reestruturação, mas o enquadramento legal português, infelizmente, não dá para mais.

comentários mais recentes
Anónimo 20.12.2017

Durante anos, excesso de funcionários e de carreiras para a vida à prova de mercado que se altera ao sabor da evolução dos tempos e do progresso da civilização, resultando na regra que diz que inovadora tecnologia eficaz, eficiente e económica não entra onde o excedentário é protegido qual espécie rara que tem de ser alimentada pelos restantes concidadãos. As coisas começam a mudar. Que mudem assim para melhor em muitas mais organizações públicas e privadas portuguesas. Antes tarde do que nunca.

Anónimo 20.12.2017

Economias avançadas como as da Alemanha, Suíça, Holanda, Suécia e Dinamarca (mercado laboral flexível, mercado de capitais forte e dinâmico) já emitiram dívida com taxa negativa a 10 anos, e mais em alguns casos, e anda Portugal do PS a deitar foguetes por causa de atingir os 1,75% a 10 anos quando quase todos os outros a emitem a uma taxa bem próximo de 0%? Contratem mais assessores de marketing. Mas paguem-lhes com o vosso dinheiro s.f.f. Não com o dos restantes cidadãos.

Anónimo 20.12.2017

O despedimento de excedentários é normal em qualquer economia desenvolvida do mundo livre. Acontece quase todos os dias em alguma organização do sector público ou privado. A boa gestão de recursos humanos é o maior antídoto para a extracção de valor que luta pelo seu espaço fazendo frente à criação de valor, e que, invariavelmente, leva ao empobrecimento e à mendicante dependência externa.

Anónimo 20.12.2017

Em organizações públicas e privadas do mundo mais desenvolvido, no âmbito da gestão das organizações faz-se gestão de recursos humanos (GRH). Sem GRH, nem criação de valor ocorre nem elevação dos rendimentos de colaboradores não excedentários se dá, uma vez que os excedentários, por definição, limitam-se a extrair valor. Economias com GRH enriquecem e desenvolvem-se de forma sustentável. Ser excedentário não significa por si só que se seja criminoso ou mesmo incompetente. Ser excedentário é como estar na condição de desempregado mas a ser suportado por uma organização que emprega o desempregado. O desempregado e o excedentário são apenas uma oferta sem procura, e isso não é crime, crime é não fazer GRH. O desempregado, sem procura no mercado laboral onde oferece trabalho. O excedentário, sem procura numa dada organização empregadora que tem que o suportar prejudicando a persecução da sua missão, visão e propósito. Ambos são um problema do Estado de Bem-Estar Social e não do empregador.

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