Tiago Freire
Tiago Freire 17 de março de 2017 às 00:01

De que independência falamos?

Quando falamos das relações entre o Governo e o Banco de Portugal, toda a gente tem telhados de vidro e desde há muitos anos.
O clima esfriou entre PSD e CDS, e a última semana vincou esse afastamento. Assunção Cristas aproveitou uma entrevista para chutar as questões da banca, no anterior Governo, para a baliza de Passos Coelho, dizendo que este as chutava sempre para a baliza do Banco de Portugal (e Vítor Gaspar veio agora dizer o mesmo). Passos, naturalmente, não gostou que Cristas tirasse o corpo fora: "nunca nenhum ministro deixou de exprimir as opiniões que entendesse relevantes". Leia-se, se Cristas não perguntou foi porque não quis saber.

Com o actual Governo, temos o efeito contrário. Costa e Centeno querem saber de tudo, querem meter as mãos em tudo, e recusam-se a santificar a suprema autoridade do Banco de Portugal. Centeno chegou a dizer, em plena Assembleia da República, que "o responsável pela estabilidade do sistema financeiro é o Governo português, é o ministro das Finanças".

É esta atitude - de coragem política mas de pouco senso institucional - que, juntamente com o cerco de toda a esquerda a Carlos Costa, tem colocado a discussão sobre a interferência do Governo na independência do banco central.

Curiosamente, entre todas as pessoas preocupadas com esta pressão (entre as quais me incluo), não vi ninguém preocupado com o tema no Governo de Pedro Passos Coelho. E nem é preciso lembrar o gritante silêncio do Banco de Portugal quando vários problemas da banca ficaram em "banho-maria", enquanto o país pedalava para a meta da "saída limpa".

É que se agora o Executivo põe em xeque a independência entre si e o Banco de Portugal, o mesmo sucedia no tempo do PSD e do CDS, mas em sentido contrário. O Governo de então, pelo papel exclusivista dado ao Banco de Portugal em tudo o que era matéria financeira, colocou-se a si próprio num absoluto estado de dependência face ao supervisor.

Se agora António Costa quer mandar de mais, Pedro Passos Coelho quis mandar de menos. O poder absoluto e solitário de Carlos Costa não foi por si reclamado: foi exigido pelas autoridades internacionais que mandavam no país e reforçado, com um suspiro de alívio, por Passos Coelho. Mais do que um respeito institucional patológico, o que tivemos foi uma desresponsabilização política de quem foi eleito para governar.

Com esta postura de que o sistema financeiro era com o Banco de Portugal, ponto final, ainda se entende menos a recondução de Carlos Costa, pelo Governo PSD, com as eleições à vista. Havia máxima responsabilidade, mas não houve máxima responsabilização.

Na equação independência/cooperação entre Governo e BdP, ninguém soube encontrar o tom certo. E isto, pelo menos, desde os já longínquos tempos de Vítor Constâncio.
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comentários mais recentes
xxx 17.03.2017

Este governo quer controlar os órgãos independentes de supervisão e fiscalização. Os bancos centrais não podem estar dependentes de vontades políticas, apenas de cenários económicos. Como muito bem sabe Tiago Freire, que desde há uns tempos é porta-voz oficioso da geringonça.

Ortigão 17.03.2017

O ptob que tanto jornslustas vomo governo ou melhor neste caso desgoverno desconhecem propositadamente de que independência estao a falar e edtar na ctidts é que é importante

helmarques 17.03.2017

"ainda se entende menos a recondução de Carlos Costa" depois de ler tudo o que escreveu, não entendo esta sua frase, então quem é que eles haveriam de colocar no lugar do CC? Só ele é que pode e tem o dever de saber resolver a questão, na sua opinião colocavam-se uns gajos dos partidos e depois seria o blablabla e empregos para os amigos, o ps conseguiu, foi buscar a srª a Bruxelas e é vice-presidente, o PR papagaio foi o primeiro a anunciar essa "mexida" o Louçã já la está e acha que são estes que credibilizam a instituição...assim se faz Portugal, uns vão bem, outros mal.

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