Raul Vaz
Raul Vaz 10 de Novembro de 2016 às 00:01

Deixámos de perceber o mundo

Miguel Esteves Cardoso fez um jornal que fez história. Ontem, teve a coragem de partilhar o dia da vitória de Donald Trump como um dia "vergonhoso" para os media. Margaret Sullivan tirou a mesma conclusão no Washington Post – "Na verdade, os media não cobriram esta história."
Cobrir, cobriram. Mas sem a capacidade de perceber o que se estava a passar e de antecipar o que aí vinha. Não seria grave se fosse um episódio isolado. Mas não é um episódio isolado. Foi assim nas eleições americanas, como foi no Brexit, como foi, cá dentro, nas últimas eleições legislativas.

Não, António Costa não ia conseguir formar Governo depois de ter perdido para Passos Coelho. Ninguém no seu perfeito juízo acreditaria ser possível um acordo com o PCP e o Bloco. Se com os bloquistas ainda persistia alguma desconfiança (inquietos, com fome de poder), com o velho partido não havia dúvida. Oitenta anos de história não se desfazem na materialização de uma pequena vingança. Não, a geringonça era impensável.

Foi com espanto que cabeças pensantes, da direita à esquerda, chocaram com o abismo de um mundo onde, afinal, cabia outro mundo. E todos vimos a realidade impor-se, já não só contra as sondagens, mas contra tudo o que os media foram prevendo. E quando as notícias e as manchetes se alimentam de espanto, algo falhou. Estamos a deixar de saber ler sinais. Estamos a fazer comunicação com preconceitos e ideias feitas. Estamos a produzir muito ruído, mas a deixar de pensar. Estamos a trocar o difícil pelo fácil.

Donald Trump ganhou porque há uma maioria cansada, na América como na Europa, de desigualdade galopante, de discursos sem prática, de caos sem soluções. Não será o fim do mundo – Trump é mais sistema do que parece, começou a recuar no discurso e a malha da superpotência vai impor-se –, mas a fúria antimedia que ontem saltou para alguns fóruns nas rádios e televisões é um aviso. A credibilidade dos órgãos de comunicação social vai na enxurrada se estes deixarem de ser um farol na leitura da realidade.

A onda Hillary Clinton teve razões óbvias – o medo do susto. Mas a liberdade dos media exige mais e a unanimidade do discurso único raramente é boa conselheira. "Na verdade, os media não cobriram esta história." Não falta matéria para os dias que se seguem. 

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mais votado jecm Há 3 semanas

Só de pensar que o New York Times, o Washington Post, O WSJ, o Los Angeles Times, o USA Today, que são os maiores jornais americanos, mas outras centenas de jornais mais pequenos declararam o seu apoio a HC, dá para perceber a grandiosidade da vitória do Trump.

comentários mais recentes
Jose Alexandre Há 3 semanas

Há neste acontecimento um aspecto positivo. A comunicação social já não consegue enganar ninguém, os anticorpos contra a falta de imparcialidade penalizam cada vez mais o politicamente correcto. Chamar estupido a quem apoiou o Brexit ou Trump sem discutir o porquê não nos leva a lado nenhum.

Toda a gente sabe que 99% dos jornalistas .. Há 3 semanas

.. não passam de uns jornaleiros avençados por partidos políticos !!

Como o Trump e' podre de rico e não tinha nada a perder, venceu com toda a facilidade a crooked Hillary, fartando-se de dizer que ela e' muito vigarista e que o sistema esta viciado pela comunicação social !!

DantasPt Há 3 semanas

O povo Americano quer mudanças, quer sangue, e Donald Trump prometeu-lhes isso. O mundo está a mudar para um desumanismo, devido á falta de futuro. Estamos a viver momentos muito perigosos, o que se passou nos USA está a passar-se em todo o mundo, os povos estão a escolher cada vez mais linhas politicas extremistas. Culpa de políticos, que se comportam como terroristas, que para ganhar votos vale tudo, inclusive dividir a sociedade, meter povo contra povo. Aliás logo apôs as eleições americanas a primeira medida tomada é procurar unir o povo que se fracturou muito durante este processo eleitoral americano. Donald Trump vai ser um excelente presidente mas vai deixar milhões de americanos desiludidos.

ordep Há 3 semanas

Raul Vaz, por favor não se faça de ingénuo, as TVS e os jornais manipulam a opinião e estão feitos com os políticos mentirosos e alguns corruptos. O sr sabe muito bem e por ter alguma credibilidade foi escolhido para este jornal. Pedro

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