André  Veríssimo
André Veríssimo 10 de fevereiro de 2017 às 00:01

Deve Mário Centeno sair?

É a questão em cima da mesa depois da revelação de cartas e emails trocados entre António Domingues e as Finanças. É o que quer a oposição. Mas será o mais responsável para o país?

É uma evidência empírica que existia uma intenção de isentar os gestores da Caixa da apresentação das declarações de rendimentos. Nem eram necessários os e-mails.

O óbice da recapitalização é que ela tinha de ser feita à margem do regime das ajudas de Estado. Um caminho estreito, que para ser percorrido obrigava a dar à operação o ar mais privado possível. E isso passava por trazer um gestor profissional do sector privado, com carta-branca para contratar no privado, com salários do privado e condições contratuais do privado. Entre essas condições, Domingues exigiu que os administradores fossem dispensados da entrega das declarações no Constitucional. E o Ministério das Finanças aceitou. Foi nessa base que Domingues fez os convites. Foi nessa base que eles foram aceites. E foi a frustração desta condição que fez ruir a equipa.

Os e-mails mostram que Domingues assume a condição como garantida. Só não mostram, preto no branco, o ministro das Finanças a dar o seu compromisso. Mas é preciso? Se até foram os advogados do anterior presidente da Caixa a preparar a legislação... (O que é revelador de uma certa promiscuidade entre certos juristas e os governos, é demonstrativo da influência ilegítima que exercem e nos põe a pensar no perigo que é muitos deputados acumularem com a profissão de advogado, mas isso dava outro artigo.)

Não é indiferente se Mário Centeno mentiu ou não. É grave um ministro mentir ao país. Muito grave. É grave que o tenha feito sobre este tema em particular? Menos grave. Talvez se tenha perdido um bom gestor, mas a lei não foi desrespeitada. É razão suficiente para que se demita? Neste momento, não.

Portugal anda debaixo de fogo nos mercados, com a taxa de juro a namorar níveis perigosos. A demissão do ministro das Finanças seria oxigénio para a fogueira. E Mário Centeno, goste-se ou não, ganhou créditos junto de Bruxelas e até dos investidores com o cumprimento das metas orçamentais. Se saísse, não seria o fim do mundo, nem é por isso que viria o Diabo.

Mas na difícil luta que Portugal trava pela credibilidade externa, o país ganha mais em manter Mário Centeno do que em vê-lo sair porque terá mentido sobre um compromisso que deu a um gestor.

O Presidente da República sabe-o e por isso saiu em defesa do ministro das Finanças. E é o que fará até se encontrar "alguma coisa assinada" por Mário Centeno que prove o contrário, disse. Pela declaração, é porque não deve haver. Se existisse, provavelmente já seria pública. A haver, Centeno terá de sair.

O caso não deixa de ter consequências políticas. O ministro enfiou-se numa camisa-de-onze-varas porque geriu mal o dossiê. Mesmo que não tenha de demitir-se, o que não é certo porque a oposição está a fazer o seu papel, Centeno sai irremediavelmente fragilizado.

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mais votado 00SEVEN 11.02.2017

Não esteja preocupado porque o SemTino vai ficar!
Uma boa percentagem dos portugueses também é trapaceira e estão borrifando-se para a ética dos governantes!
Sejam eles aldrabões, corruptos ou incompetentes desde que lhes deem um chouriço e um copo de três estão na maior!
Não se vê pelas sondagens publicadas sejam elas sérias ou aldrabadas!

comentários mais recentes
Anónimo 12.02.2017

Eu cá, estou de acordo com todos, só que ao contrário ! Qual é o problema de termos um ministro das finanças aldrabão ?

A MARCA DE ÁGUA DE PASSOS É A MENTIRA 12.02.2017

O biltre PASSOS culpa Centeno de mentir.
Se falamos de mentir, nisso é ele um perito doutorado.
Recordemos q este porco prometeu, a pés juntos, na campanha das Legislativas de 2011, que, se fosse PM, não aumentaria impostos para, logo q se apanhou no lugar, os aumentar, indo, até, além da troica

Um conselho amigo 12.02.2017

Oh ANDRÉ VERÍSSIMO, até compreendemos que tenhas de conservar o teu lugar, mas procura ter um pouco mais de liberdade mental, isto é, de independência de carácter e evita tornares-te mera caixa de ressonãncia do director RAÚL VAZ, cuja obediência à direita mais radical e retrógrada é conhecida.

??? 12.02.2017

Porquê? Por conversa de café?

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