André  Veríssimo
André Veríssimo 06 de fevereiro de 2018 às 23:00

Do susto ao alívio

Paul Samuelson, prémio Nobel, disse um dia que “os mercados accionistas previram nove das últimas cinco recessões”. É um bom ponto de partida para olhar para as quedas que tingiram de vermelho as bolsas.

Quando um arranque de ano fulgurante nos mercados accionistas, um dos mais fortes de sempre, de repente se transfigura numa maré de perdas, com o índice do medo a registar a maior subida diária de sempre, ou as bolsas europeias a fechar com sinal negativo durante sete dias consecutivos, há boas razões para questionar se a bonança dos últimos anos está em vias de se esfumar.

O que mudou? Há uma questão de fundo, ontem aqui detalhada pelo Nuno Carregueiro, que é o regresso da inflação e com ela de uma política monetária mais agressiva, com subida das taxas de juro e aumento do custo de financiamento da economia. A mudança na actuação dos bancos centrais é um tema discutido há anos, mas a sua materialização nunca foi tão palpável como agora. A subida mais abrangente dos salários nos EUA, conhecida na sexta-feira passada, é apontada como o gatilho desta percepção mais aguda.

Esta perspectiva de taxas mais altas reflecte-se na subida dos juros das obrigações. A mera subida da remuneração proporcionada pelos activos mais seguros, como a dívida pública americana, funciona como um desincentivo para tomar risco em acções ou obrigações de empresas mais endividadas. Ou seja, estas tornam-se menos atractivas.

O substracto para o desaire bolsista completa-se com um mercado sobrevalorizado e um peso cada vez maior da negociação algorítmica, que com a sua artificial inteligência avivada por supercomputadores contribuiu para ampliar as variações.

O que não mudou? Aquilo a que os analistas chamam os fundamentais: uma economia mundial de vento em popa, que deverá registar este ano o melhor crescimento da década e resultados das empresas a crescer. Isto sem que se vislumbrem sinais de uma inflação galopante que force uma actuação musculada dos bancos centrais.

Quaisquer notícias da morte da retoma ou mesmo do actual ciclo altista das bolsas parecem manifestamente exageradas. Os índices americanos fecharam ontem com ganhos superiores a 2%, numa clara recuperação.

Isto não significa que tudo tenha ficado na mesma. Esta espécie de segunda-feira negra (que se arrastou para terça-feira na Ásia e Europa) pode ter posto um ponto final numa certa complacência que se apoderara dos investidores e serve de aviso. A volatilidade será, dizem os estrategos, maior. O que é normal, nós é que tínhamos perdido o hábito do carrossel.

O "bull market" acabará, um dia, por ceder ao "bear market" e, como sempre, teremos dificuldade em perceber os primeiros sinais. Mas segunda-feira não terá sido esse dia. 
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