Raul Vaz
Raul Vaz 15 de fevereiro de 2017 às 00:01

E agora, podemos falar da Caixa?

A conversa do ministro das Finanças não foi brilhante. Ficou o que já se temia, o ministro não tem jeito para mentir. Mas espera-se que tenha sido um dos últimos capítulos de uma novela que meio país não percebe e outro meio já vomita.

Hoje, Mário Centeno vai estar no Parlamento para responder aos que insistem numa operação de desgaste do ministro, ávidos por travar a lenta marcha de António Costa e explorar a fragilidade que foi escancarada. Mas todos os temas políticos têm um prazo de validade e seria politicamente higiénico que o tema Domingues não perdurasse além do prazo. Estamos perto disso.


A recapitalização da Caixa é demasiado importante para a economia do país. Claro que podemos continuar a descascar um caso descascado. E que, de duas uma: ou já tinha servido para derrubar o ministro, ou dificilmente se chega lá. O Presidente da República explicou porquê. Porque não contribui para a estabilidade do sistema financeiro decapitar o ministério que procura arrumar a banca e, simultaneamente, retirar Portugal do procedimento por défice excessivo.


Marcelo foi suficientemente duro na nota que publicou sobre o assunto e deixou perceber que ele próprio está a ficar cansado da conversa. Mas ao permitir a permanência de Mário Centeno, deixou o recado: não brinquem mais com o fogo e, se brincarem, não se queixem.


O Presidente tem razão e os deputados da direita que hoje vão interrogar o ministro podem aproveitar para lhe perguntar sobre aquilo que verdadeiramente interessa. Como está a recapitalização da Caixa? Onde está o plano ao abrigo do qual os contribuintes foram novamente chamados? De quem são os créditos malparados que levaram o banco público a chegar onde chegou (o Banco de Portugal e a CMVM não querem dizer)? Como vai a auditoria forense à Caixa que está parada no banco central? Que regime vai ser aplicado para indemnizar os trabalhadores a dispensar no processo de reestruturação do banco? Como e quando será feita a colocação da dívida da Caixa em privados, e a que preço?


No fundo, o que a Caixa está a pedir é um urgente virar de página, e queimar o ministro das Finanças em lume brando não ajuda. A última intervenção do Presidente da República neste folhetim também não foi o que parece - ao dizer que aceita a permanência de Centeno em nome do interesse nacional, Marcelo acabou por fragilizá-lo na praça pública. Com o PS a perceber que, afinal, não tem o Presidente na mão.


Mas a questão central é mesmo o interesse do país. E o crescimento de 1,4% do PIB só é uma boa notícia numa economia que vive ligada à máquina. Pôr a banca a ajudar as empresas é uma urgência nacional. E salvar a Caixa na alçada do Estado é um dever. No que realmente interessa, precisamos de mais Paulo Macedo e de menos António Domingues
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Outro javardola Há 1 semana

Agora podes emigrar

lsreis Há 2 semanas

No meio desta novela, gostava de saber ao certo se foi mesmo Lobo Xavier que mostrou os ditos SMS, aos quais terá tido acesso por ser amigo de Domingues, ao Presidente e a título de Conselheiro de Estado! Que tivesse acesso a eles só me levanta algumas dúvidas, que os "mostrasse" ao Presidente já me levanta incomensuráveis dúvidas. A ser verdade esta última parte só deveria mostrar o que foi escrito por Domingues, se tivesse a sua anuência, e nunca as respostas de Centeno! Se o fez aí entrou na esfera do privado e violou claramente a Lei e a Constituição! Quem passaria a acreditar na manutenção do dever de sigilo por parte deste ilustre advogado? E a ser verdade o que foi publicado, dito, televisionado terá ele condições para se manter como Conselheiro de Estado? Têm a palavra o Sr. Dr. Lobo Xavier e o Presidente da República!

Anónimo Há 2 semanas

Depois desta novela, seria mais interessante assistirmos ao filme a cores sobre patrimónios destes banqueiros, que se recusam a mostrar, serem averiguados pelo Ministério Público. O POVO, que não é BURRO, desconfia de tanta preocupação de reserva!

Anónimo Há 2 semanas

A recusa de apresentar a correspondência trocada entre Mário Centeno e António Domingues é igual à recusa da paf, há 3 anos, de obrigar a Irrevogável a ir ao parlamento, dar explicações por causa dos submarinos. Cá se fazem, cá se pagam. É a vida.

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