André  Veríssimo
André Veríssimo 14 de fevereiro de 2018 às 23:00

E depois dos 2,7%?

O INE confirmou ontem o número mágico de 2,7%, o maior crescimento económico do século. O primeiro-ministro exultou-o, como lhe compete, no Parlamento. Mas assentemos os pés na terra.

O bom momento é inegável. E é importante salientar que é feito de um cimento mais sólido, com as exportações a subirem para 42% do PIB e o país a ganhar quota em vários mercados.

Foi um ano de celebração para sectores como o calçado e o têxtil, que registaram as mais altas vendas para o exterior de sempre. Também o turismo teve um ano inédito. Juntando o alojamento local, terão sido mais de 23 milhões os turistas no país.

Portugal cresceu acima da média da Zona Euro e até da União Europeia, convergência rara que o primeiro-ministro fez questão de sublinhar. Não é de somenos.

Mas também é verdade que os 2,7% ganham um brilho acrescido por contrastarem com um pano de fundo de mais de uma década perdida. Isso ajuda, e de sobremaneira, a que o número salte à vista.

Deste ponto de vista, os 2,2% previstos para o próximo ano também não comparam mal. O problema está na convergência. Segundo as últimas previsões da Comissão Europeia, 2017 terá sido um "one-off" em termos de convergência, já que o PIB da Zona Euro deverá avançar 2,3%. As estimativas dão mesmo a Portugal o quinto crescimento mais baixo.

O número de 2018 irá provavelmente ser revisto em alta, como o deste ano o foi. Já há economistas a admiti-lo. Mas o mesmo deverá acontecer com o dos países da moeda única.

Pode parecer derrotismo olhar para o maior crescimento do século e ver o copo meio vazio. Não é se tivermos outra ambição: irmos à frente em vez de à boleia da Zona Euro. O país precisa dessa ambição para despir a camisa de sete varas em que ainda está metido, à conta dos seus desequilíbrios macroeconómicos.

Dizem o PCP e o Bloco que o bom desempenho da economia se deve à política de devolução de rendimentos. O Governo acrescenta o rigor das contas públicas e a recuperação do sistema bancário e da credibilidade externa. A direita fala no efeito das reformas feitas no seu tempo. Há que acrescentar o esforço dos empresários, mas todos têm uma quota de razão. Só que não chega.

António Costa escolheu o tema da inovação e do conhecimento para o debate quinzenal. Aí está um domínio que será cada vez mais decisivo no sucesso das economias e deveria merecer uma aposta incisiva. Muito mais do que os sucessivos governos lhe têm dado e este apregoa
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