Celso  Filipe
Celso Filipe 19 de junho de 2017 às 00:01

É tão bom, não foi?

A Lisboa "cool" tem um frémito com a visita de Madonna a Lisboa e indigna-se com as hordas turísticas que vagueiam por Alfama e têm o desplante de fotografar as cuecas que os moradoras têm estendidas na corda (jornal i, "dixit").
Os lisboetas ficam de peito cheio com as reportagens elogiosas sobre a cidade (desde que sejam produzidas por órgãos de comunicação social estrangeiros) e irritam-se enfaticamente com a turba de tuk tuk que invade a zona histórica e contribui para tornar o trânsito ainda mais caótico.

Muitos lisboetas, ou melhor muitos dos lisboetas que frequentam as redes sociais, acham mesmo que a capital tem turistas a mais e clamam pela necessidade de restringir a entrada destes na cidade.

Muitos deles são, porventura, os mesmos que há uns anos se queixavam da pouca atractividade de Lisboa como destino turístico, da escassez na oferta de alojamento e de degradação dos espaços públicos. E, provavelmente, são os mesmos que recorrem às "low-cost" para visitar outras cidades europeias, as companhias aéreas que contribuíram decisivamente para massificar e embaratecer destinos turísticos como Lisboa.

Como em tudo na vida há quem tenha razões plausíveis para se queixar e quem possua motivos razoáveis para se regozijar. Há muito colorido no debate, mas falta-lhe seriedade. Lisboa, como o resto do país, tem motivos para agradecer ser um dos destinos mais procurados pelos turistas, mais do que não seja pelo contributo destes para a economia nacional. Esta procura não pode ser controlada, antes pelo contrário, tem de ser incentivada.

Mas enquanto Lisboa (e o país) se vai entretendo com estados de alma, esquece-se do essencial, que é a produção de regulação que permita manter as cidades (Lisboa e Porto) competitivas preservando as suas identidades. É por isso que é essencial passar para letra de lei novas regras para o alojamento local e para a circulação de veículos de transporte turístico.

No caso do Airbnb, é facilmente constatável que a proliferação deste regime de alojamento cria bairros instáveis com populações transitórias, retirando-lhes a identidade. Uma possibilidade de travar esta erosão é a de estabelecer quotas de alojamento local em cada bairro. Esta é uma matéria em que é preciso agir rápido, antes que seja tarde demais e Lisboa e o Porto percam aquilo que neste momento atrai os turistas, a sua autenticidade. Caso contrário, daqui a uns anos estaremos a lamentar-nos de uma quebra da procura, tristes com a efemeridade do nosso sucesso enquanto destino turístico e a repetir, sem gosto, a interrogação: "É tão bom, não foi?" 


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comentários mais recentes
Mr.Tuga 19.06.2017

Tipico do tuga: vai matar rápido a galinha dos ovos....

Anónimo 19.06.2017

Por exemplo, os apartamentos das zonas de Alvalade, Av. de Roma, Areeiro que são enormes e habitados por inquilinos idosos já com poucos recursos para poderem fazer face a obras de restauro/manutenção.
E são zonas bonitas, com bons transportes.