Mais uma cimeira, mais uma viagem, mais uma voltinha. Certo? Errado. Há agora uma diferença. Enorme. Espanha e Itália adoptaram um discurso de aflição. É altura de encararmos as perguntas difíceis: e se isto der mesmo para o torto? E se o euro acabar? E se no fundo a Alemanha estiver a preparar não a nossa mas a sua saída do euro?
Mais uma cimeira, mais uma viagem, mais uma voltinha. Certo? Errado. Há agora uma diferença. Enorme. Espanha e
Itália adoptaram um discurso de aflição. É altura de encararmos as perguntas difíceis: e se isto der mesmo para o torto? E se o euro acabar? E se no fundo a Alemanha estiver a preparar não a nossa mas a sua saída do euro?
A
União Europeia está à beira do descalabro. Falar nisso já não é alarmismo, não falar é que passou a ser negacionismo. O alarme soa já por toda a Europa. Soou ontem, aliás. Desde a Itália e desde Espanha, países que afinal não são grandes demais para falhar, são apenas grandes demais para salvar.
Na Itália, a armadilha chama-se dívida pública. É gigante. E o facto de ser em grande parte dívida interna e não externa começa a deixar de ser atenuante suficiente. Porque pagar taxas de juro mais elevadas é, para uma dívida tão grande, o suficiente para aniquilar o excedente das contas italianas. Para mais, o primeiro-ministro de que os mercados gostam, o tecnocrata Mario Monti, tem uma margem política muito reduzida para implementar medidas de austeridade. Porque lhe falta a legitimidade do voto. E porque a coligação parlamentar é frágil.
Em Espanha, o primeiro-ministro Mariano Rajoy é uma desgraça. Afunda-se em contradições e mostra-se incapaz de liderança política de uma crise que se está a descontrolar. A intervenção junto de alguns bancos espanhóis com problemas mostrou-se ineficaz para sossegar os mercados. E assim os mercados estão a cobrar taxas de juro incomportáveis à própria dívida soberana espanhola. Mais: há bancos que já não estão a conseguir financiar-se nos mercados, disse ontem Rajoy. Supõe-se que se referia não aos bancos com problemas, pois esses estão "cobertos" pela ajuda de cem mil milhões. Estaria então a falar dos maiores bancos espanhóis,
Santander,
BBVA e La Caixa?
Este cenário de aflição aumenta brutalmente a pressão sobre a Alemanha. O que falta, a França submergir? O que está a acontecer é a precipitação da necessidade de apoiar Itália ou (e?) Espanha, precisamente o que sempre dissemos que aniquilaria o euro. Porque não havia, e não há, dinheiro que chegue para um resgate a esses países. E é por isso que as cimeiras vão avaliando "resgates suaves", tais como a compra pelo Fundo de Estabilização de dívida pública destes países no
mercado secundário. Não é para poupar estes países de um resgate como o português. É por não haver dinheiro para ele.
Agora imagine-se na pele de um alemão. Tem a inflação controlada, está a financiar-se a taxas de juro quase nulas e olha para o lado e vê países a pedirem-lhe dinheiro para salvar os seus problemas. Acode-lhes? Ou sacode-os?
A resposta é completamente especulativa mas a pergunta não. Há rumores de um célebre estudo supostamente feito pela Alemanha que avalia o impacto no seu PIB do fim do euro. A
Finlândia, ao contrário de outros países (como Portugal), só emprestou dinheiro para a Grécia contra garantias reais: "ouro" (títulos de elevado "rating" e "cash"). Os mercados emprestam dinheiro a taxas nulas à Alemanha, o que significa que preferem não ganhar dinheiro e terem um refúgio - ou mesmo a terem uma opção sobre o marco... Há empresas alemãs, como a
Volkswagen, que já estão a fazer contratos com cláusulas que se referem não ao euro mas "à moeda que vigorar". E notícias não confirmadas de grandes bancos europeus que têm planos de contingência para o fim do euro. Seja pelos efeitos de contágio de uma saída desordenada. Seja por uma saída voluntária de países como a Finlândia. Ou mesmo a Alemanha.
Sim, a Alemanha. Atrevamo-nos à pura especulação. A saída para a crise parece passar apenas por uma solução de federalismo, como ainda ontem defendeu Viviane Reding, vice-presidente da
Comissão Europeia. Mas esse federalismo, que implicaria a criação de uns Estados Unidos da Europa, parece longínqua porque simplesmente… os europeus não parecem querê-la. E o federalismo não pode ter na raiz se não a democracia.
Se houver federalismo com democracia (e não há outro federalismo), então a Alemanha terá menos poder representativo pelo povo do que tem hoje pelo poder do dinheiro. Essa ideia não agrada aos alemães, como se viu na ideia recente de o poder no
Banco Central Europeu ser distribuído em função da posição no capital, o que daria mais poder à Alemanha.
Se a Alemanha não quiser perder esse poder que o federalismo lhe imporia (basta ver como hoje tem mais força que as instituições europeias como a Comissão e o Conselho), e farta que se mostra de passar cheques, então a alternativa para um continente imerso numa crise longa pode ser a ruptura. Sobretudo a partir do momento em que a Alemanha deixe de lucrar com a crise como tem lucrado até aqui: financia-se a taxas de quase zero e "empresta" a 3% ou 4%; tem risco baixo de Alemanha e moeda fraca de país do sul.
A Europa enfrenta um cenário de estagnação à japonesa, de um longo período de nenhum ou de fraco crescimento. Se a Alemanha sair do euro, atrás por exemplo de uma Finlândia que abra essa porta, enfrentará uma quebra imediata no PIB e uma apreciação da sua "nova" moeda, o que reduziria a sua competividade. Para os outros países, como Portugal, seria o fenómeno inverso: ficariam com uma moeda mais fraca, longo poderiam desvalorizar, o que seria bom. Mas perderiam a capacidade de controlar a inflação.
O que está em jogo é mais do que finanças, é uma construção política que visa uma relação de paz entre povos europeus. Mas as finanças estão a rebentar as costuras dessa construção. E está demasiado em jogo para que não nos preocupemos. Esperemos que os alemães gostem mais dos outros povos europeus do que os povos europeus gostam deles.