André  Veríssimo
André Veríssimo 07 de Outubro de 2016 às 00:01

E se o BCE se retrair?

A ideia de que chegou a vez de os governos se chegarem à frente e os bancos centrais atrás está a ganhar força. Para Portugal, isso tem um lado perigoso, mas tem também um lado bom.
Mario Draghi sempre disse que os estímulos monetários, como o "quantitative easing", só por si não resolveriam o problema do crescimento. Apenas compravam tempo para os governos agirem.

A verdade é que desde que o BCE ligou a máquina de imprimir dinheiro, os governos pouco ou nada fizeram. França é um caso paradigmático da incapacidade em reformar a sério seja o que for. A Alemanha tem preferido viver à sombra dos seus excedentes comerciais e orçamentais. Por cá, aposta-se nas reversões.

O problema é que comprar tempo está a sair cada vez mais caro ao BCE, alvo de uma pressão cada vez mais intensa. A política monetária que conduz é acusada de estar a comprometer a rentabilidade da banca, agudizando a sua debilidade; de depauperar a reforma de milhões de futuros pensionistas, ao deprimir a rendibilidade dos fundos de pensões; de estar a aumentar a desigualdade, ao apreciar o valor dos activos financeiros, detidos sobretudo pelos mais endinheirados, e de com isso acicatar os populismos. É acusada ainda de promover uma alocação ineficiente e irracional dos recursos financeiros, ao suprimir o risco e alimentar bolhas especulativas.

O BCE sente a pressão, da banca, dos políticos. E acusa-a, nas incontáveis vezes que membros do BCE já vieram dizer que a culpa da situação de fragilidade de alguns bancos europeus não é das baixas taxas de juro, mas das debilidades estruturais dessas instituições.

O BCE continuará a fazer tudo o que julgar necessário para cumprir o seu mandato e aumentar a inflação. Mas as forças contrárias agitam-se. Esta semana os mercados abanaram com uma notícia da Bloomberg, logo contrariada, onde se lia que o BCE estava a preparar uma inversão da política monetária. Como país potencialmente mais penalizado por essa circunstância, os juros da dívida pública portuguesa saltaram para os 3,5%. A "yield" de Portugal será sempre um bom barómetro da credibilidade da actual política monetária ou da sua longevidade.

O novo rumo pode tardar, mas há-de chegar. E ou o BCE arranja uma forma de continuar a apoiar só os países mais fragilizados ou terá de haver uma suficiente coordenação política na Europa para almofadar o impacto negativo. É isso ou a coesão da Zona Euro volta a estar em cima da mesa.

Mas há o lado bom. A percepção de que a política monetária não chega e a urgência de os governos fazerem a sua parte nunca foi tão grande. Por motivos económicos e políticos – crescer é essencial para travar o populismo.

Recuperar o keinesianismo quando o mundo deve o dobro do que produz por ano não é para quem quer, é para quem pode. E Portugal pode pouco ou nada. Mas se quem tiver margem avançar com estímulos orçamentais, estará a ajudar os que não podem ou não conseguem. Na Alemanha, com eleições à vista, já se fala em descidas de impostos e planos de investimento. Com Keynes em campo, teríamos mais chances de escapar ao "círculo vicioso" em que a DBRS nos prende. 

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mais votado surpreso Há 3 semanas

"Não gastem o que não têm" .É muito dificil perceber?

comentários mais recentes
Agora sim André Há 3 semanas

Já fui critico, mas agora sim. Este modelo da UE (económico e financeiro) está a gerar dependências circunscritas. Ainda hoje um governante nosso dizia ser calamitosa a eventual suspensão de fundos. Muitas amarras. Um jogo perigoso.

surpreso Há 3 semanas

"Não gastem o que não têm" .É muito dificil perceber?

Luis Ferreira Há 3 semanas

isto já não é um país.... é um campo minado de "ses".....

Anónimo Há 3 semanas


PS DEIXA MORRER UTENTES DO SNS... PARA DAR MAIS DINHEIRO À FP:

- PS aumenta despesa com salários da FP em 500 milhões de Euros;

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