Raul Vaz
Raul Vaz 02 de Novembro de 2016 às 00:01

Explique lá, dr. Costa

O arrastar do impasse na Caixa Geral de Depósitos atingiu o limite da decência.
Depois de ter aceite todas as condições do presidente que escolheu , de forma a garantir uma equipa qualificada e não correr mais riscos de gestão política no banco público, António Costa corre o risco de ver António Domingues bater com a porta. Seria demasiado vexatório. Seria mau para todos mas, a acontecer, já se percebeu: seria por o Governo faltar à palavra.

Quando aceitou retirar a nova administração da Caixa do espartilho aplicado aos gestores públicos, o Governo devia ter assumido isso mesmo: Domingues e a sua equipa ganhariam ao nível da melhor banca privada e estariam isentos do escrutínio público. Colados à esquerda radical, Costa e Centeno tiveram complexos e atamancaram uma solução. Assumiram a questão salarial e esconderam o resto. O Presidente da República cobriu a parada. E não fosse a denúncia de Marques Mendes, a coisa passava nos pingos do estio.

Descoberta a jogada, António Costa fez o que faz como ninguém: chutou para canto. Salvaguardadas as devidas diferenças, foi assim quando José Sócrates foi preso - "à Justiça o que é da Justiça, à política o que é da política" - e foi assim desta vez - "a questão é entre a Caixa e o Tribunal Constitucional". Temos um primeiro-ministro que adora agarrar-se à separação de poderes para separar problemas. Mas há uma pergunta a que António Costa deve dar resposta: afinal, é ou não é verdade que António Domingues lhe disse que a sua equipa não aceitaria declarar o património nos moldes exigidos aos gestores públicos? E é ou não é verdade que o Governo aceitou essa condição?

O país deve saber com clareza os contornos do negócio, como diz o socialista e republicano Jorge Coelho: de duas uma, ou o Governo assume que aceitou a condição do novo presidente da Caixa, ou este deve apresentar a sua declaração no Tribunal Constitucional.

O jogo rola em dribles de calcanhar. Quando diz estar a "cumprir escrupulosamente a lei", António Domingues entala o primeiro-ministro. No fundo, o que o gestor está a dizer é que a alteração legal feita pelo Governo isentou-o do estatuto do gestor público. Foi, aliás, esse, o único propósito da mexida na lei. Agora, falta ouvir a outra parte: foi assim ou não, dr. António Costa?

Mário Centeno já disse que sim: "Não foi lapso". O ministro das Finanças pode não ser político mas tem dificuldade em jogar com a verdade. As declarações do primeiro-ministro estão a jogar com a verdade. Independentemente do que o Constitucional vier a decidir, o país precisa de saber se o Governo acordou ou não com António Domingues que o seu escrutínio seria diferente.
Querer vergar o presidente da Caixa não é um bom começo de uma nova vida do banco público. A menos que Domingues esteja redondamente a mentir. Os contribuintes, que são os accionistas, merecem saber. Explique lá, dr. Costa.
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mais votado JCG Há 2 dias

A trapalhada começa no Costa e na rapaziada que escolheu para dotar o Governo. Muitos nem para dirigir uma associação de estudantes têm competência. Se calhar Costa, para sobressair, fez questão de acolitar gente ainda mais incompetente.

comentários mais recentes
alberto.sousa.18007218 Há 2 dias

COMO É HABITUAL, NÃO COMENTO ESTA NOTÍCIA.

CARREGUE, DR. COSTA. A DIREITA ANDA DE CABEÇA PERD Há 2 dias

O nosso amigo Raúl Vaz, destacado serventuário incondicional da direita mais radical, aproveita a boleia desta tentativa (condenada ao fracasso) de colocarem pedras na engrenagem da "geringonça" (como eles gostam de dizer).
Só que o povo não é parvo e já não embarca em demagogias baratas.

É sempre mau limpar o abo antes de Há 2 dias

agar. Esta maxima aplica-se ao cronista ansioso por agradar à direita na esperança sabe lá do quê. A direita bem se esforça por (tentar) ver nalguma poeira, uma tempestade de areia. O que vale é que este governo tem estaleca suficiente para fazer o país andar prá frente.

José Lemos Há 2 dias

VENCIMENTOS DOS GESTORES PÚBLICOS
Nenhum quadro público deveria ganhar mais que o Primeiro Ministro ou o Presidente da República!
Mas, será mais difícil dirigir uma empresa do que dirigir um País? Não nos tratem por estúpidos!
Então, ganham 400 vezes mais que um vulgar operário (CEO da EDP ga

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