Celso  Filipe
Celso Filipe 08 de outubro de 2017 às 23:00

Faltam palavras na Catalunha

Em Setembro de 2016, Ramon Font foi nomeado delegado da Generalitat da Catalunha em Portugal. Nesse mesmo mês, em entrevista ao Negócios, foi-lhe feita a pergunta inevitável - A transformação da Catalunha num estado independente é irreversível?
"O que é irreversível é o sentimento de que as coisas não podem continuar iguais. No fundo, trata-se de fazer um reconhecimento muito simples, o de que Espanha é uma realidade plurinacional. Não é assim tão difícil aceitar esta realidade. Há uma convergência de pontos de vista na Catalunha, entre partidários da independência e partidários de outras formas de relacionamento com Espanha, de que isto tem de ser feito rapidamente, porque não podemos estar muito mais tempo neste estado de hesitação e angústia", respondeu então o ex-jornalista, espanhol, catalão nascido em Cervera, província de Lérida.

Existem duas palavras-chave nesta resposta, irreversível e plurinacional. Foi a irreversibilidade que fez chegar a situação da Catalunha a uma situação extrema. A irreversibilidade do Governo espanhol em negociar uma maior autonomia da Catalunha, a irreversibilidade da Catalunha na sua decisão de levar em diante um referendo fracturante. A plurinacionalidade, conceito de partida para a natureza irreversível dos acontecimentos recentes, é aceite pelas duas partes, mas de forma diferente. Madrid considera que a Catalunha tem as mesmas especificidades de outras regiões e por isso os mesmos direitos e deveres, a Generalitat catalã exige mais, respaldada no poderio económico da região.

A Generalitat da Catalunha forçou um referendo à espera de uma cedência que não aconteceu. O Governo espanhol hostilizou a Catalunha porque considerou a estratégia adequada para unir o país em torno de um inimigo comum, os independentistas. E as duas partes parecem ter extremado as posições de tal forma que qualquer recuo pode ser entendido como uma derrota. Pelo caminho, há muitas empresas que já estão a retirar as respectivas sedes da Catalunha, situação que enfraquece o argumento económico esgrimido por muitos dos que defendem a independência.

O discurso do rei de Espanha, duro para os catalães, só serviu para acentuar as clivagens. Ao referir-se a uma "inadmissível deslealdade" para com o resto do país, Felipe VI tirou margem de manobra aos moderados dos dois lados que procuram um entendimento por via do diálogo.

Esta via, que parece esgotada, é paradoxalmente a única alternativa. "Acredite mais nas nossas palavras do que nos nossos actos. Ou melhor, não conheça as nossas acções e atente apenas nas nossas palavras, porque a palavra vem da liberdade original do espírito e retorna a ela voando pelo ar acima de nós", escreveu Joan Maragall (1860-1911), ícone do modernismo espanhol e catalão. Sem a força da palavra só se poderá esperar o pior.


Nota da Direcção: Pedro Romano, jornalista do Negócios entre 2010 e 2012, faleceu aos 31 anos. Cada um dos que trabalharam com ele guarda belas histórias de camaradagem e humor. É assim que o vamos lembrar . O Pedro partiu, mas fica entre nós. Afinal, o nada não existe. Nesta hora de dor, o Negócios endereça à família enlutada as mais sentidas condolências.
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comentários mais recentes
surpreso Há 2 semanas

Um artigo imbecil ,que talvez tenha sido influenciado por esse fascista Font.O governo de Espanha cumpre a Constutuição a "mãe das leis".Os golpistas aprovaram ,em reuniões parlamentares ilegais ,um "referendo" e uma "lei de rotura" ,factos que têm sido acompanhados de mentiras e traições,de fantasias fácilmente desmontáveis pelos honestos.A realidade económica tem vindo a afirmar-se ,porque os golpistas andaram a enganar os catalães.Só um pasquim ,como este ,poderia defender a INSENSATEZ

Eusebio manuel Vestias Pecurto Vestias Há 2 semanas

A Espanha é na prática um estado federal as regiões autónomas têm mais liberdade de acção do que os estados de outros paises Europeus Os supermacistas catalães não aceitam um regime federal em igualdade com outras regiões espanholas