André  Veríssimo
André Veríssimo 29 de janeiro de 2018 às 23:00

Imobiliário a 38º

Com o dinheiro a render pouco ou nada nos bancos, o imobiliário está a transformar-se numa espécie de capitalismo popular da segunda metade do século XXI. E isso tem riscos.

O fulgor que se vive no imobiliário é um dos mais poderosos sinais da retoma da economia portuguesa e está a trazer capitais preciosos para o país. O investimento imobiliário bateu recordes em 2017 e este ano o valor deverá ser ainda maior, antecipam as consultoras.

Os negócios sucedem-se a um ritmo quase diário. Um edifício de escritórios reabilitado e vendido por uns milhões ali. Três centros comerciais a mudar de mãos de uma só vez e por centenas de milhões acolá. E o turismo a fazer nascer hotéis um pouco por todo o país.

As taxas de rentabilidade estáveis e superiores a outros mercados maduros da Europa são um chamariz para fundos de pensões ou seguradoras. Até aqui se vê o outro olhar dos investidores sobre Portugal. Quem compra vem numa perspectiva mais de longo prazo. Quem vende são os "hedge funds", os ditos abutres, que compraram quando mais ninguém queria e agora saem por cima.

Depois há os particulares, que procuram presas mais pequenas neste lago de tubarões. As valorizações de encher o olho ajudam a abrir o apetite. O tema entra nas conversas de café como em tempos idos se falava dos ganhos fantásticos das acções.

A febre tem os seus perigos. Há zonas, em Lisboa e Porto, onde se verificaram variações muito expressivas dos preços e sobre as quais já ninguém hesita em falar em bolha. Há quem esteja a vender por muito bons preços, mas outros a comprar por valores arriscados.

Como qualquer febre, esta também tem os seus efeitos secundários. As famílias tremem para encontrar casa a preços comportáveis. A que acresce uma nova vertigem pelo crédito.

Estamos ainda longe dos valores anteriores à crise, mas em Dezembro, pela primeira vez em mais de dois anos, o novo crédito contraído pelas famílias para a compra de casa foi superior àquele que foi saldado junto do banco. Ou seja, o bolo total está a voltar a aumentar, tendência que se acentuará com a subida dos juros.

A febre ainda é baixa, anda pelos 38º. Os reguladores dizem que têm o paracetamol à mão. Esperemos que o usem antes que seja tarde. 
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mais votado Virar-se o feitiço contra o feiticeiro 30.01.2018

Atenção Bancos:
Cuidado com o estímulo (por ação ou inação) às bolhas no imobiliário.
Compreende-se bem a Vossa difícil posição de poderem ser criticados por “terem cão ou por não terem”.
Mas as bolhas imobiliárias, como Vocês melhor que ninguém sabem,
podem ser muito favoráveis aos vossos(e de outros sectores) interesses de curto prazo,
mas, como a história económica tem mostrado, a longo prazo, podem ter custos gravíssimos para os países, e até para vocês mesmos.
Vejam lá se, com a preocupação de tentar resolver a curto prazo um problema ( a Vossa Rendibilidade),
não estamos a juntar lenha para nos queimarmos com um problema ainda maior para Todos
(atiçar o crescimento de uma bolha imobiliária)
virando-se o feitiço contra o feiticeiro.

comentários mais recentes
Mr.Tuga 30.01.2018

Quando os tugas, mesmo da classe ALTA, deixarem de ter guita para comprar casa em LIXOboa ou no porCo ....

Virar-se o feitiço contra o feiticeiro 30.01.2018

Atenção Bancos:
Cuidado com o estímulo (por ação ou inação) às bolhas no imobiliário.
Compreende-se bem a Vossa difícil posição de poderem ser criticados por “terem cão ou por não terem”.
Mas as bolhas imobiliárias, como Vocês melhor que ninguém sabem,
podem ser muito favoráveis aos vossos(e de outros sectores) interesses de curto prazo,
mas, como a história económica tem mostrado, a longo prazo, podem ter custos gravíssimos para os países, e até para vocês mesmos.
Vejam lá se, com a preocupação de tentar resolver a curto prazo um problema ( a Vossa Rendibilidade),
não estamos a juntar lenha para nos queimarmos com um problema ainda maior para Todos
(atiçar o crescimento de uma bolha imobiliária)
virando-se o feitiço contra o feiticeiro.