André  Veríssimo
André Veríssimo 02 de novembro de 2017 às 23:00

Inquietemo-nos

Paulo Azevedo está numa cruzada contra a compra da dona da TVI pela Altice. E isso deve deixar-nos a todos preocupados.

A operação acarreta riscos "gravemente lesivos do pluralismo e do direito dos cidadãos à informação" e "provocará um grave e perigoso enfraquecimento da resiliência e qualidade da nossa sociedade", avalia o patrão da Sonae.

Chegou a dizer que o negócio poderia "criar uma Operação Marquês 10 vezes maior". Em entrevista ao Expresso,   esclareceu que nada o move contra a Altice em si. O que o preocupa é a concentração de poder: juntar o maior operador de telecomunicações com a maior empresa de comunicação social.


Dois reguladores pronunciaram-se já nesse sentido. Um sem valor vinculativo, a Anacom, que diz que a operação nos moldes em que foi apresentada coloca entraves significativos à concorrência. O outro poderia ter sido vinculativo, mas por vontade de uma só pessoa não foi.


O parecer técnico da ERC foi contrário à operação, expressando, entre outros,  receios sobre o impacto na independência e isenção editorial. O voto contra o chumbo do negócio do presidente (Carlos Magno) impediu que os votos favoráveis dos dois vogais matassem o negócio.


Paulo Azevedo é refém de uma contradição insanável. Para a opinião pública, o homem de negócios que vê na concentração entre o Meo e a dona da TVI uma ameaça às suas contas é inseparável do cidadão preocupado com os males que a operação pode fazer à liberdade de imprensa e à democracia. Mais ainda quando com ele fazem coro a Nos, detida pela Sonae, e a Vodafone, todas concorrentes do Meo.

A indústria dos media está no centro do vórtice disruptivo da transformação digital. O que podia ser um poderoso aliado, e também o é, mergulhou-a num longo Inverno. Coincidência, ou talvez não, esta fragilidade acontece num tempo histórico em que a ameaça distópica cresce.

A Altice garante que tudo fará para obviar os problemas de concorrência detectados e que o seu investimento fará da Media Capital um grupo mais forte.


Pode o modelo da empresa francesa ser a salvação? Ou será o canto da sereia? E se Paulo Azevedo tiver razão? A dúvida é motivo suficiente para nos inquietarmos.

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