Helena Garrido
Investidor (ir)racional
23 Abril 2012, 10:58 por Helena Garrido | Helenagarrido@negocios.pt
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Que tipo de investidor é? Quer apenas ganhar dinheiro sem qualquer restrição feita de valores éticos?
Que tipo de investidor é? Quer apenas ganhar dinheiro sem qualquer restrição feita de valores éticos? Então olhe apenas para a rendibilidade do dividendo e saque o que investiu o mais depressa possível. Mas se é um investidor que acredita nas empresas como centros de criação de valor, nas virtudes do mercado concorrencial e numa ética para o capitalismo então é preciso olhar um pouco mais longe.

Há uns poucos anos, quando as mercadorias como o trigo ou o milho foram a promessa de bons ganhos, o gestor de conta ofereceu entusiasmado ao cliente a possibilidade de investir em fundos de mercadorias. É o que está a dar dinheiro, dizia. O cidadão anónimo não era propriamente um daqueles tubarões da finança que tudo faz para aumentar a sua fortuna e percebeu que quanto mais ele ganhasse mais fome poderia haver em África. Recusou.

Esta época de distribuição de dividendos pelas empresas é o momento certo para o confronto com o que se está a escolher quando se investe numa empresa e não noutra. Um tempo de reavaliação justificado ainda pelo caso da Brisa: os grandes accionistas são salvos dos problemas financeiros da empresa pelos bancos que financiam dois terços da Oferta Pública de Aquisição e onde se inclui a CGD.

Quem não tem no dinheiro o seu Deus absoluto, há critérios que pode usar na escolha das suas acções - além do valor mais generalizado da sustentabilidade ambiental.

O montante dos dividendos a distribuir pelos accionistas não deve ameaçar o futuro da empresa e deve ser compatível com o que a própria empresa está a pedir aos seus 'stakeholders', que vão desde os trabalhadores a clientes e fornecedores. Tendo este princípio abstracto como referência é preciso recolher alguma informação para avaliar se a empresa merece que se invista nela as poupanças. Primeira informação: o montante de dividendos distribuídos foi gerado pela empresa ou foi preciso endividar (ainda mais) a empresa para satisfazer os accionistas? Num caso destes, não raro em Portugal, a empresa está a hipotecar o seu futuro e, mais cedo ou mais tarde, enfrentará dificuldades. Se a solução for aquela que se está a ver na Brisa, o pequenos accionista é o grande perdedor.

Segunda informação especialmente importante nos tempos de austeridade em que vivemos: Está a empresa a aumentar os lucros que distribui em dividendos quando, ao mesmo tempo, não aumenta salários - ou até reduz -, pressiona os seus fornecedores para fazerem descontos e não paga a horas e aumenta os preços aos seus clientes? Ou seja, os accionistas da empresa e os seus gestores recusam-se a reduzir a sua fatia de um bolo que está mais pequeno e vão tirar bocados aos outros.

São comportamentos racionais dirão. Sim, ameaçar o futuro da empresa e, tendo poder, aumentar a fatia de um bolo que encolheu cortando nas fatias dos outros é racional mas na óptica da economia da selvajaria. A racionalidade dos investidores financeiros (também) reflecte os valores da sociedade.



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